Conscientização, respeito e inclusão. No Dia Mundial da Síndrome de Down, vamos relembrar a trajetória da artista visual Marina Marandini, 35 anos, graduada pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) em 2017.
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A condição genética nunca impediu a jovem de sempre alçar novos voos. Desde o ingresso e permanência na Universidade, e a aprovação com nota máxima no TCC em Artes Visuais, Marina vem dando vários exemplos de garra e superação. Foi através da educação que Marina descobriu a pintura, a dança e o caminho para a realização de seus sonhos.
O mais recente deles foi a conquista do campeonato na 5ª edição do reality show Expedição 21, realizado em São Paulo - neste programa de imersão, jovens participantes com Síndrome de Down têm o objetivo de alcançar a independência e aprender a morar sozinhos, sendo desafiados por provas e dinâmicas que envolvem habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e emocionais.
Para alcançar esses objetivos, Marina conta com o apoio irrestrito da mãe, Doris, do padrasto Savio (o "padrasto-pai", como ela se refere), de colegas e supervisores de trabalho e todo um sistema de apoio que se formou à sua volta.
É sabido que muitas pessoas com SD ao redor do mundo não recebem o apoio que precisam, uma vez que os sistemas existentes não conseguem atender às suas necessidades. Por isso, governos e comunidades devem garantir que haja um sistema de apoio para que pessoas com deficiência sejam incluídas na comunidade.
Marina é exemplo disso. Confira, abaixo, o depoimento enviado por ela que é uma das egressas mais simbólicas do Instituto de Letras e Artes (ILA) da FURG.
Em 21 de março é comemorado o Dia da Síndrome de Down. Com muito orgulho, digo que é o meu dia.
Consegui vencer muitos obstáculos e desafios, porque sempre tive comigo, desde o primeiro dia em que abri meus olhos, minha mãe. Ela me aceitou do jeitinho que nasci, acreditou, confiou, me apoiou, apostou e não mediu esforços para eu conseguir fazer tudo o que quisesse sem me importar com o tempo que levaria, e muito menos com as pessoas que diziam que não era possível. Agradeço a Deus por ter colocado em nossas vidas a minha mãe e meu padrasto-pai Savio, que é um pai incrível, que amo muito.
Hoje tenho orgulho de ser uma pessoa com Down formada na Universidade, que trabalha há 3 anos na mesma empresa e que se destacou em um programa de empoderamento de pessoas com síndrome de Down em nível nacional, o qual teve 500 inscritos para concorrer a 54 vagas que seriam divididas em três grupos de 18 jovens no ano de 2024.
Na vida passamos por várias fases e aprendemos com cada uma delas.
Quando ingressei na Universidade não tinha ideia do que seria capaz e o que descobria, mas sabia que era um desafio imenso. Com o tempo mostrei que era capaz e o desejo de estar era tão grande, que as pessoas começaram a acreditar que era possível e, mais, descobriram em mim o dom da pintura. Me incentivaram e eu amei ter descoberto este meu lado até então adormecido e desconhecido. Mas vou repetir: precisamos acreditar em nós mesmos para podermos convencer as pessoas de que somos capazes.
Logo após ingressei no mercado de trabalho, e estou há 3 anos na mesma empresa. Esta empresa sempre deu oportunidades pra os PCDs, mas fui a primeira com síndrome de Down; esta empresa é a rede de Supermercados Guanabara. Trabalho no Cassino, onde moro. Posso dizer que trabalho em um grupo maravilhoso, que me aceita, respeita e acredita no meu potencial. Realmente incluem as pessoas com deficiência, coisa rara em nossa cidade. Só tenho a agradecer meus colegas de trabalho que me aplaudem, mas também me puxam a orelha, quando necessário. Agradeço sim, pois quem ama, acredita e respeita, corrige quando estamos errados; para que a gente se torne cada vez melhor.
Quanto ao programa Cromossomo 21, minha mãe viu no (programa da TV Globo) Fantástico e achou incrível. Começou a pesquisar e achou um documentário no YouTube da primeira edição da Expedição Cromossomo 21; este vídeo trata do empoderamento de jovens com síndrome de Down. Em fevereiro ela viu no Facebook que iriam abrir inscrições para novos jovens com síndrome de Down de todo o Brasil participarem do projeto da Expedição 21.
Por isso que digo e repito: tudo o que sou hoje, uma grande parte devo à minha mãe que sempre apostou e acreditou em mim. Digo uma parte, pois não tenho medo e estou sempre pronta para novos desafios.
Enviamos o vídeo me apresentando e dizendo porque eu queria participar do projeto. Quando fui selecionada fiquei feliz, mas confesso que me deu medo, 3 dias longe da minha família, sem celular com pessoas que eu não conhecia. Conseguem imaginar desafio maior que este??
Mas a alegria do novo desafio falou mais alto; fui toda feliz, mas com um medão por dentro.
Posso dizer que foi uma experiência única e desafiadora. Ficar 3 dias com pessoas estranhas de várias partes do Brasil. Aprendi a me conhecer, a me ver nos colegas, me autodesafiar, conhecer pessoas com hábitos, ideias completamente diferentes, foi um aprendizado sem limites. Confesso que gostaria de ter ficado mais dias. O idealizador do projeto, (o educador social) Alex Duarte, é um ser humano iluminado. Aconselho a lerem os livros dele, seguirem o seu Instagram e também o perfil do Cromossomo 21.
No dia da formatura, o Alex começou a nos chamar, os formandos. Achávamos que seria em ordem alfabética; mas para surpresa de todos, o Alex começou assim: "Vou chamar uma menina que se destacou em todas as provas e foi a responsável por sua equipe ter sido a vencedora. Quando perguntamos para eles se intitularem com uma palavra, ela falou 'competitiva!'; ela é gaúcha e cassineira". Meu coração quase saiu pela boca e chorei muito. Imagina eu, de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, ter conseguido este feito!
Por isso vou dizer novamente: acreditem em vocês, nos seus potenciais, corram atrás de seus desejos e sonhos. Não tenham vergonha de pedir ajuda, independente do que as pessoas te disserem. NUNCA DESISTAM!!!
Ah, olhem só, mais um desafio: me inscrevi para o concurso de assistente de administração da FURG. Sei que estou em desvantagem, pois as provas são iguais para todos os candidatos. Digo "desvantagem" porque minha deficiência é intelectual: não consigo atingir o conhecimento dos demais; mas em desejo de aprender sempre, de acertar, responsabilidade, organização e coragem para enfrentar este novo desafio, isto eu tenho de sobra.
Se quiserem me conhecer melhor e continuar acompanhando meus novos desafios, me sigam no Instagram.
Marina Marandini