"Eu acredito muito na educação, porque ela me transformou. Conseguiu me tirar de um lugar que a sociedade definiu que seria meu pelo resto da vida. Estar no país que mais mata travestis e transexuais no mundo há 17 anos é, de fato, sair de casa sem saber como e em que momento a tua vida vai cair por terra. Por isso, quando vocês, pessoas cis heteronormativas, se juntam a essa luta, a gente fica mais tranquilo pois, de alguma forma, vocês vão entender um pouquinho o que é a LGBTfobia, o que é a transfobia".
Estudantes podem participar da ADD 2026/2 a partir de hoje
Feira das Ciências reúne escolas de Rio Grande durante dois dias de atividades na FURG
FURG recebe representantes do Ministério da Energia da Noruega em agenda sobre tecnologia e setor offshore
As palavras da vereadora Regininha foram a tônica da tarde de terça-feira, 7, durante o lançamento oficial do projeto TransTech na sede do Centro de Convívio dos Jovens do Mar (CCMar).
O projeto de capacitação profissional é focado em pessoas trans e travestis em situação de vulnerabilidade e exclusão social, sendo realizado através de parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Associação de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros (ALGBT) Rio Grande e a Otroporto Indústria Criativa.
O TransTech chega com a missão de oferecer um espaço seguro, acolhedor e humanizado para que essas pessoas possam adquirir qualificação profissional na área de tecnologia, além de fortalecer a autoestima e a dignidade e acessar oportunidades concretas e efetivas no mercado de trabalho. O público-alvo são pessoas trans e travestis com 16 anos ou mais, em vulnerabilidade social e econômica, e residentes em Rio Grande e região.
De acordo com o coordenador pedagógico do CCMar, Guy Barcellos, o Centro é um espaço de acolhimento e humanização. "Além da formação profissionalizante, também possuímos atividades de direitos humanos, formação em direitos humanos, em saúde pública, alfabetização científica e alfabetização ecológica. Então, além de oferecermos esse conhecimento de excelência e essa formação de competências e habilidades para o mercado de trabalho, também ajudamos a preparar jovens para o exercício pleno de uma cidadania crítica e planetária. O curso TransTech vem justamente ao encontro dessa proposta de transformação social e de reversão de desigualdades que o CCMar se compromete desde a sua fundação, e que reflete também o espírito que anima o projeto pedagógico da nossa Universidade. A FURG está comprometida com as comunidades vulneráveis desde a sua fundação", avaliou.
"Vamos desfrutar deste momento excepcional que teremos com essas pessoas que nos honram com a sua presença aqui no CCMar, essas 15 alunas e alunos que se interessaram em realizar essa formação aqui. A nossa expectativa é de sucesso no curso e de que nós possamos contribuir para a qualificação dessas pessoas para que elas possam entrar no mercado de trabalho com pleno emprego, que é o desejo de todas elas", concluiu o diretor.
As aulas iniciaram esta semana e seguem até dezembro, nas instalações do CCMar. A matriz curricular inclui Python, Cloud Computing e Power BI. Para garantir a permanência na formação, os estudantes terão acesso, ao longo do curso, a bolsa-auxílio, transporte e alimentação.
Defesa dos direitos
Para a procuradora do Trabalho Cristina Benedetti, o "trabalho decente é um direito humano de todas as pessoas, independentemente do gênero ou da orientação sexual. Cada ser humano é detentor de igual dignidade e merece iguais oportunidades, seja na sua formação educacional e profissional, seja no mercado de trabalho. E o Ministério Público do Trabalho tem como missão institucional, conferida pela Constituição Federal, lutar pela defesa dos direitos de todos os trabalhadores e todas as trabalhadoras. Dentre esses direitos, está o de se inserir no mercado formal de trabalho em condições dignas de execução. Esse projeto visa justamente possibilitar que a população trans da região tenha acesso a uma qualificação profissional e consequentemente ao mercado de trabalho para que, por meio de um trabalho legalizado e formalizado, em condições seguras e saudáveis, consiga obter condições de se sustentar e de edificar a sua própria condição enquanto pessoa humana".
"Somos muito felizes de ter a parceria aqui da Universidade, a parceria do CCMar, que sempre abre as portas para todas as pessoas excluídas, todas as pessoas à margem da sociedade, incluindo a população LGBTQIA+. E somos alegres por ter esse quórum, por ter tido a ampla adesão da população trans. Desejamos que o curso seja um sucesso e que essas meninas e esses meninos saiam daqui em dezembro com condições de ingressar no mercado de trabalho e condições de, nele, permanecer ao longo da sua vida profissional", completou a procuradora.
"Travestilidade e transexualidade não são uma escolha"
Presente no ato, a vereadora Regininha defendeu que "não existe armário para pessoas trans. Não tem como me esconder numa sociedade que me julga e que me fecha a porta diariamente. Eu tenho somente a opção de enfrentar, enfrentar e enfrentar. Então, para enfrentar todas as dificuldades, preconceitos e obstáculos diariamente, a gente chama os nossos combatentes, os nossos soldados, as nossas irmãs e irmãos. A gente se empodera juntos e juntas e juntes para que possamos enfrentar essa sociedade que, de fato, não compreende as diferenças".
"Vivemos em uma sociedade que fala muito sobre inclusão, mas não entende a questão da sexualidade e da identidade de gênero. É tão importante, quando a gente fala sobre inclusão, compreender que a travestilidade e a transexualidade não são uma escolha. Porque enquanto a gente, enquanto sociedade, ainda pensar e acreditar que é uma escolha, julgamos e temos um olhar de afastamento dessa população dos lugares em que todos e todas devem estar. Quando a gente diz que é uma escolha, está dizendo que a gente pode penalizar esses sujeitos por conta das suas escolhas. Que essas vidas saiam da invisibilidade, da violência, da marginalização dos seus corpos. Que a gente possa ir para frente com muita dignidade, romper com as barreiras, destruir os muros e construir pontes para a nossa população", finalizou a vereadora.