EVENTOS EXTREMOS

Ciência para proteger a comunidade universitária: entenda como a FURG toma decisões diante de eventos climáticos extremos

Comitê reúne cerca de 30 profissionais de diferentes áreas e subsidia a Reitoria na definição de medidas de segurança

Foto: Hiago Reisdoerfer/Secom

Quando uma portaria da FURG enquadra um evento meteorológico como de impacto baixo, médio, alto ou severo, o documento representa apenas a etapa final de um processo que envolve análise científica, acompanhamento meteorológico, avaliação das condições dos diferentes territórios onde a Universidade está presente e discussão entre profissionais de diversas áreas.

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Por trás dessas decisões está uma estrutura que começou a ser organizada em 2023, depois de uma sequência de ciclones que atingiu o Rio Grande do Sul e provocou danos, interrupções no fornecimento de energia e dificuldades de mobilidade, deixando um rastro de destruição inclusive nos campi da instituição. Foi naquele contexto que a FURG identificou a necessidade de estabelecer um mecanismo permanente para avaliar riscos e subsidiar a gestão diante da ocorrência de fenômenos extremos.

Em novembro de 2023, a FURG aprovou o Programa Institucional de Avaliação, Prognóstico e Mitigação de Impactos de Eventos Extremos, instituído pela Resolução Coepea nº 117/2023. A iniciativa estabeleceu mecanismos permanentes de monitoramento das condições meteorológicas e hidrológicas, avaliação de prognósticos, definição de níveis de impacto e protocolos acadêmicos e administrativos para diferentes cenários.

É dentro dessa estrutura que atua o Comitê de Avaliação e Prognóstico de Eventos Extremos da FURG. O grupo foi criado inicialmente com forte presença de pesquisadores das áreas de meteorologia, climatologia, oceanografia, geografia e correlatas, mas sua atuação foi ampliada ao longo dos anos à medida que a Universidade passou a compreender que uma decisão durante um evento extremo envolve muito mais do que a análise das condições meteorológicas e climáticas.

Atualmente, de acordo com o coordenador do grupo, Felipe Kessler, o grupo é constituído por aproximadamente 30 pessoas, reunindo representantes das áreas da saúde, psicologia, educação, comunicação, infraestrutura, meteorologia, previsão e simulação, engenharia, gestão institucional, Hospital Universitário e pró-reitorias, além de representantes de todos os campi da FURG.

Ainda segundo o coordenador, a proposta é fazer com que as recomendações sejam construídas de forma interdisciplinar, incorporando tanto a avaliação científica do fenômeno quanto seus possíveis impactos sobre a rotina de estudantes, servidores, trabalhadores terceirizados, unidades acadêmicas e administrativas e serviços essenciais. “É um comitê grande, que tenta justamente abarcar, da maneira mais interdisciplinar possível, as decisões, as recomendações e o acompanhamento do cenário”, explicou o professor.

Entre a preservação da vida e a manutenção das atividades

A lógica que orienta o trabalho do Comitê parte de duas premissas: preservar a vida como prioridade e, sempre que possível, manter o funcionamento acadêmico e administrativo da Universidade. Essa segunda parte se tornou particularmente importante diante da intensificação dos episódios meteorológicos extremos. Para a FURG, simplesmente suspender todas as atividades sempre que houver uma previsão adversa não representa uma estratégia sustentável de adaptação, principalmente porque a Universidade está inserida em uma região onde eventos desse tipo podem ocorrer diversas vezes ao longo do ano.

Em toda sua estrutura multicampi espalhada por quatro cidades do Estado, a FURG conta com unidades externas, museus, centros associados, estruturas de pesquisa, espaços de extensão, restaurantes universitários, casas de estudantes, laboratórios com espécies biológicas vivas e também um Hospital Universitário. “O universo de atividades da Universidade exige um pensamento muito cuidadoso. Não se trata apenas de não ter aula. São restaurantes universitários, espaços como o Centro Integrado de Atenção à Criança e ao Adolescente (Caic), unidades de extensão e espaços de pesquisa que não podem simplesmente ser fechados sem um planejamento”, ressaltou o coordenador.

Além de espaços e patrimônio público, é importante não esquecer que toda essa estrutura é mantida por pessoas. “O Comitê pensa no estudante, no técnico, no terceirizado e no serviço essencial. Cada território tem sua especificidade, e nós temos um grande quantitativo de estudantes e servidores que dependem de transporte público. Isso também precisa entrar na tomada de decisão”, completou Kessler.

Ainda em razão dessa estrutura intermunicipal, existem também diferenças importantes entre os territórios. Um evento pode apresentar impacto limitado na unidade Carreiros, no campus Rio Grande, por exemplo, mas comprometer o transporte público, inundar vias de acesso ou atingir outro município onde a FURG também está presente.

A avaliação considera justamente essa dimensão territorial e as condições concretas de deslocamento da comunidade. Para o Comitê, estudantes, servidores e trabalhadores que não consigam se deslocar com segurança durante um evento devem ser acolhidos pelas medidas institucionais, mesmo quando não há necessidade de suspensão generalizada das atividades, garantindo que, ainda que não consigam se fazer presentes com a manutenção do expediente acadêmico, tenham garantia à recomposição de frequência e conteúdo.

De onde o comitê tira informações para embasar suas discussões?

Apesar do nome original do grupo, o Comitê não atua isoladamente na elaboração das previsões meteorológicas. Na estrutura atual, sua função é reunir e interpretar diferentes informações para planejar a resposta institucional. As análises consideram dados e recomendações produzidos por órgãos como as Defesas Civis, institutos oficiais de meteorologia e equipes especializadas da própria Universidade, incluindo o Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (CIEX).

Em suas portarias, a FURG explicita justamente o conjunto de fontes, utilizando informações do Comitê, do CIEX, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e das Defesas Civis municipais para enquadrar os diferentes níveis de impacto.

Segundo o coordenador, cabe ao Comitê reunir essas informações e avaliar qual resposta é mais adequada para a Universidade. “Assim que são emitidas as recomendações da Defesa Civil, quando chegam as previsões que monitoramos e quando conversamos com o CIEX sobre as recomendações necessárias, o Comitê reúne todos esses dados e analisa o melhor caminho dentro da premissa de precaução, preservação da vida e, sempre que possível, manutenção das atividades acadêmicas”, detalhou Kessler.

A atuação conjunta com o CIEX também amplia a capacidade técnica da FURG. Criado a partir da experiência acumulada pela Universidade durante os grandes eventos de 2024, o Centro passou a produzir informações utilizadas não apenas internamente, mas também por municípios, instituições do Estado e, recentemente, ainda firmou um protocolo de intenções com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para atuar também em nível nacional.

Na avaliação do professor, essa estrutura coloca a FURG em uma posição diferenciada pela quantidade e diversidade de especialistas envolvidos na análise dos fenômenos.

Quatro possibilidades de resposta

Uma das principais características incorporadas à rotina institucional foi a superação de uma lógica exclusivamente binária entre funcionamento normal e suspensão total.

O Programa aprovado em 2023 estabeleceu quatro níveis de impacto: baixo, médio, alto e severo. A classificação considera fatores como limitações de mobilidade, energia elétrica e comunicação, possíveis danos à infraestrutura e risco à saúde ou à vida. Na prática, esses enquadramentos permitem diferentes respostas institucionais, que podem envolver desde a manutenção normal das atividades até medidas especiais, atividades exclusivamente remotas ou suspensão integral.

Kessler resume essa lógica em quatro situações gerais: normalidade, atenção, atividades exclusivamente remotas e suspensão completa do calendário. Essa flexibilidade busca responder a uma realidade em que um fenômeno meteorológico pode produzir impactos relevantes sem necessariamente exigir o fechamento integral da Universidade.

Nos casos de impacto intermediário, por exemplo, podem ser adotadas medidas específicas para estudantes ou trabalhadores afetados, assegurando reposição de atividades ou tratamento diferenciado quando o deslocamento não puder ser realizado com segurança.

“O caminho mais fácil seria cancelar as atividades e pronto, todo mundo fica em casa. Mas isso não contempla o contexto que nós vivemos. Estamos em uma região em que essas ocorrências não se resumem a um evento extremo por ano. Essa realidade faz parte do cotidiano do nosso território”, ponderou o professor.

Decisões precisam ser rápidas, mas não precipitadas

Outro desafio central é o tempo. Eventos extremos podem evoluir em poucas horas e exigir mudanças rápidas de planejamento. Por isso, o Comitê não funciona apenas em reuniões formais.

“Em situações de evento extremo, tempo de resposta é essencial. Entre a chegada da previsão do dia ou do próximo dia, o debate e a tomada de decisão, é preciso agir o mais rápido possível”, afirmou Felipe.

Segundo ele, boa parte do trabalho ocorre de maneira contínua, inclusive fora dos horários tradicionais de expediente. “O Comitê não pode agir somente por meio de uma reunião protocolar em um determinado dia da semana. Trabalhamos de forma contínua. Às vezes, os comunicados chegam em um domingo à noite, por exemplo e, com isso, precisamos, enquanto grupo, operacionalizar e dimensionar essas informações para auxiliar a reitoria na sua tomada de decisão”, explicou.

Esse acompanhamento permanente busca justamente reduzir o intervalo entre a identificação de um risco e a comunicação para a comunidade. O coordenador reconhece, no entanto, que esse processo ainda está em aperfeiçoamento.

“Nós já identificamos que nosso tempo de resposta estava muito lento para o que a situação exige e, portanto, estamos tomando providências para que a informação circule o mais rápido possível. Também estamos desenvolvendo protocolos de emergência para as unidades e territórios”, relatou.

Processos em permanente revisão

Uma característica importante do modelo adotado pela FURG é que os protocolos não são tratados como documentos definitivos. Após cada evento significativo, o Comitê avalia o que funcionou, quais as falhas identificadas e quais procedimentos precisam ser aperfeiçoados.

Essa revisão permanente é considerada parte fundamental da adaptação institucional às mudanças climáticas, justamente porque fenômenos extremos podem apresentar comportamentos distintos e produzir impactos diferentes em cada território. Entre as ações em desenvolvimento estão protocolos específicos para unidades, definição de serviços críticos, treinamentos, organização de demandas prioritárias e resposta, além de procedimentos relacionados à evacuação e esvaziamento de espaços quando necessário.

Informação oficial e construção de uma cultura de prevenção

Para além da estrutura técnica, outro importante desafio é construir uma cultura institucional de prevenção. Durante períodos de instabilidade meteorológica, dúvidas sobre suspensão de aulas ou funcionamento dos campi se espalham rapidamente por grupos de mensagens e redes sociais. Para o professor, a comunidade precisa compreender que informações oficiais devem ser buscadas nos canais institucionais da Universidade.

“É preciso destacar que precisamos criar uma cultura de acompanhar o canal oficial da Universidade, seja pelo portal FURG.br ou pelo perfil da FURG no Instagram. É ali que está a fonte da informação, e não em um grupo de WhatsApp. Se as informações ainda não estiverem públicas, o comitê ainda está deliberando e uma decisão será emitida em breve”, explicou o coordenador.

Esse cuidado também busca evitar a propagação de informações alarmistas. Como instituição com forte atuação nas áreas ambiental, oceanográfica e atmosférica, a FURG possui grande responsabilidade sobre a forma como comunica riscos. “A decisão da instituição é fundamentada na ciência. Ela envolve vários pesquisadores e vários mecanismos. A comunidade precisa entender que essa decisão não é tomada de forma inocente”, destacou.

Quando o alerta não se confirma, a prevenção ainda funcionou

Ainda tratando sobre a criação e adaptação de uma cultura em que eventos extremos fazem parte do cotidiano, vale destacar que esse é um processo que passa também pela compreensão de que previsões meteorológicas trabalham com probabilidades e cenários que podem se alterar. Mesmo quando as condições evoluem de forma positiva após a emissão de uma portaria, isso não reduz a importância das medidas preventivas adotadas.

Um evento classificado inicialmente como potencialmente grave pode perder intensidade. Da mesma forma, fenômenos previstos como menos severos podem evoluir rapidamente. Isso significa que uma medida preventiva não deve ser considerada equivocada simplesmente porque o pior cenário não se concretizou.

Para o grupo, esse entendimento faz parte da construção de uma nova cultura de convivência com eventos extremos. “Quando há um alerta e não acontece nada, que bom que não aconteceu nada. É uma cultura que precisa ser estabelecida”, resumiu.

O mesmo princípio vale quando a Universidade recomenda a interrupção imediata de uma atividade. Em situações de risco elevado, a orientação deve ser tratada como uma medida de proteção, e não como algo que possa ser adiado até o encerramento de uma aula, reunião ou experimento.

Ciência para subsidiar decisões

Mais de três anos depois dos ciclones que deram origem à iniciativa, o Comitê passou de uma estrutura criada para responder a situações excepcionais para um mecanismo permanente de adaptação institucional. Sua atuação hoje combina monitoramento científico, análise territorial, infraestrutura, mobilidade, saúde, comunicação, assistência estudantil e gestão acadêmica.

A decisão final sobre o funcionamento da Universidade cabe à Reitoria, mas é subsidiada por essa rede de especialistas e por informações provenientes de órgãos oficiais. Para o professor, essa diversidade técnica representa uma das principais forças da FURG diante de uma realidade climática que tende a exigir respostas cada vez mais frequentes.

“Podemos ser falíveis, porque evento extremo é muito dinâmico e pode se transformar em algo mais tranquilo ou em algo muito pior do que o inicialmente imaginado. Agora, é importante destacar para a nossa comunidade que nós, enquanto grupo de especialistas e enquanto instituição, vamos sempre tomar a melhor decisão com os dados que temos disponíveis”, completou.

Nesse cenário, o objetivo do Comitê não é eliminar a incerteza, algo impraticável diante da própria natureza dos fenômenos meteorológicos, mas reduzir riscos, antecipar impactos e garantir que a Universidade disponha de mecanismos cada vez mais rápidos e qualificados para proteger sua comunidade.

 

 

Galeria

Parte do grupo reunido em um encontro para discutir protocolos internos do comitê

Hiago Reisdoerfer/Secom