O cais do Porto do Rio Grande foi o ponto de partida, na noite de quarta-feira, 17, de uma expedição científica que percorrerá diversos pontos da costa do Rio Grande do Sul. O objetivo é investigar, ao longo de dez dias, a influência do estuário da Lagoa dos Patos no ambiente marinho e sua biodiversidade.
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Sob a coordenação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Biodiversidade da Amazônia Azul (INCT-BAA), quatro expedições científicas simultâneas estão sendo realizadas nas plataformas continentais do Sul, Sudeste, Nordeste e Norte do Brasil.
Em Rio Grande, a desatracação do Laboratório de Ensino Flutuante Ciências do Mar I, pertencente à frota da FURG, ocorreu pontualmente às 22h de quarta. O responsável pela chefia científica da primeira etapa do cruzeiro é o professor Stefan Weigert, do Instituto de Oceanografia (IO) da FURG, que pouco antes da partida comentou sobre a missão que a equipe tem pela frente.
"Os mares do sul são bastante desafiadores nesta época de final do inverno. Primeiro, porque não temos áreas de refúgio. E há pouco tempo de manobra, para dizer 'vamos nos refugiar na Barra, deixar passar essa frente e daqui a 2 dias a gente volta'. Temos dez dias para executar o cruzeiro; esse é o grande desafio, cumprir todo o desenho amostral, com as 27 estações oceanográficas que estão no mapa", observou o professor.
Nessa etapa inicial, estão embarcados 13 pesquisadores da FURG e três de outras instituições (Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Paraná e Universidade Federal Rural da Amazônia). A etapa 2 será chefiada pelo TAE Marcelo Peres de Pinho, também do IO, e terá o mesmo número de tripulantes.
A ação Cruzeiros Sinóticos tem o apoio da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Cirm), órgão federal voltado à coordenação das políticas costeiras e marítimas.
Cruzeiro de pesquisa é inédito na região
Segundo o professor Weigert, esta é a primeira oportunidade em que o Ciências do Mar I sai em um cruzeiro de pesquisa, "que não é um cruzeiro de formação de curso humano, um cruzeiro de aula. É um navio que está conosco desde 2017, eu naveguei bastante nele, já ensinamos e formamos tantos alunos, mas este é o batismo dele como um cruzeiro de pesquisa".
Ainda de acordo com o chefe do cruzeiro, "nossos discentes de Oceanologia estão também aproveitando essa oportunidade (a bordo do Ciências do Mar I), pois precisamos treinar pessoas experientes. Temos perspectivas muito boas para a nossa região, a curto e médio prazo, como a questão das reservas de óleo e gás na Bacia de Pelotas e também a transição energética eólica offshore. Essas demandas estão batendo na nossa porta e vamos precisar de profissionais que aguentam trabalhar no mar".
Equipamentos utilizados a bordo
Para cumprir o objetivo da ação junto à costa gaúcha, serão coletados dados padronizados sobre a vida no oceano e suas relações com o ambiente. Essas informações serão reunidas em um banco público, em parceria com instituições partícipes do INCT-BAA. Confira abaixo a lista de alguns equipamentos a serem utilizados nas pesquisas e suas funções.
CTD & Roseta: o Conductivity, Temperature and Depth (CTD): é um dos principais equipamentos oceanográficos usados para estudar as propriedades físicas da água do mar. Os principais dados coletados pelos sensores do CTD são temperatura, profundidade e salinidade (pela condutividade); e dependendo de quantos sensores ele possui ainda pode medir oxigênio dissolvido (O₂), fluorescência de clorofila, turbidez e pH ou pCO₂. Ele é lançado no mar, normalmente acoplado a uma roseta de garrafas de coleta de água, e mede em tempo real as condições da coluna d’água desde a superfície até grandes profundidades.
Redes para Fitoplâncton e Zooplâncton: as redes de plâncton são instrumentos simples, mas fundamentais na oceanografia biológica. Elas consistem em malhas de náilon ou outro material, com abertura bastante pequena (menores do que 1mm), que filtram a água e retêm organismos microscópicos (fitoplâncton e zooplâncton). Possuem o formato de um cone com um copo coletor no final onde ficam os organismos coletados. Pesquisadores recolhem esses copos coletores com as amostras para armazená-las a bordo e, posteriormente, analisar em seus laboratórios. Servem para classificar espécies de fitoplâncton e zooplâncton, além de descobrir novas espécies e monitorar a riqueza de espécies, estudar ciclos de vida e migrações verticais diárias do zooplâncton, estimar a biomassa planctônica nas diferentes regiões dos cruzeiros, determinar áreas e épocas de reprodução de peixes comerciais, e monitorar espécies invasoras transportadas por correntes ou água de lastro.
Equipamentos acústicos (Hidroacústica): este equipamento usa o som subaquático para estudar o oceano. Nos navios de pesquisa, é essencial porque o som se propaga muito melhor na água do que no ar, permitindo “enxergar” o fundo marinho e também organismos na coluna d’água. A pesquisa hidroacústica em navios é como “usar os ouvidos para ver debaixo d’água” e permite desde mapear o fundo e o subsolo, até detectar organismos vivos e monitorar o som ambiente.
Box corer, van Veen, dragas: são ferramentas clássicas da oceanografia geológica, porque permitem coletar sedimentos de fundo marinho. O Box corer (coletor de amostras) é um amostrador em forma de caixa que desce fechado e, ao tocar o fundo, corta um bloco de sedimento. O van Veen é uma garra metálica articulada, que se fecha ao tocar o fundo e “morde” o sedimento para coletar sedimentos superficiais do fundo. A draga é um equipamento com estrutura metálica aberta, puxado pelo navio sobre o fundo.
Towed camera (câmera subaquática rebocada) e BRUVs: tanto a câmera quanto os Baited Remote Underwater Video Systems (BRUVs) são tecnologias modernas de amostragem visual usadas em ecologia marinha e monitoramento de habitats. Elas permitem observar organismos in situ, sem a coleta direta. O Towed Camera é um sistema de câmeras (às vezes com sensores adicionais, como luzes, lasers de escala, sondas de profundidade e posição) montado numa estrutura rebocada atrás do navio. Os BRUVs são uma estrutura com câmera subaquática fixa (ou múltiplas câmeras em 360°), posicionada no fundo ou na coluna d’água. Servem para estudar as espécies bentônicas e o fundo marinho, monitoramento de comunidades de peixes e outros animais móveis, avaliação de riqueza e abundância relativa de espécies, pesquisas de áreas marinhas protegidas e impactos da pesca, e monitoramento das áreas recifais.
Observação de cetáceos e aves marinhas: observadores treinados usam binóculos, câmeras e protocolos padronizados registrando espécie, número de indivíduos, comportamento, posição geográfica e condições ambientais (mar, vento, visibilidade), entre outros. Sua função é estudar os padrões de distribuição, abundância e ocorrência das espécies de baleias, golfinhos e aves marinhas, bem como sua variação no espaço e tempo; é possível ainda observar áreas importantes de alimentação e reprodução. Estas informações podem ser essenciais para se identificar áreas prioritárias para o ciclo de vida destes animais, e, portanto, para sua conservação.
Censo de atividades pesqueiras: um observador a bordo realiza o levantamento das atividades pesqueiras (incluindo número e localização das embarcações, arte de pesca, e, eventualmente, as espécies-alvo das pescarias) durante a navegação na área de estudo.