RECUPERAÇÃO

Cram realiza soltura de 16 pinguins-de-magalhães na manhã desta quinta-feira, 30

Após 45 dias de tratamento intenso, pinguins encontrados cobertos por óleo voltam ao mar

Foto: Hiago Reisdoerfer/Secom

Na manhã desta última quinta-feira, 30, o Centro de Recuperação de Animais Marinhos da FURG (Cram) realizou a soltura de 16 pinguins-de-Magalhães, recuperados ao longo de 45 dias após serem encontrados cobertos de óleo em diferentes pontos do litoral sul gaúcho. De acordo com a coordenadora do Centro, Paula Canabarro, a equipe não registrava casos semelhantes há mais de sete anos.

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Causando uma série de danos ao organismo, a contaminação por óleo compromete a impermeabilidade das penas, reduz a capacidade de isolamento térmico e dificulta a flutuação e a locomoção. Além disso, durante a tentativa de limpar o próprio corpo, os pinguins podem ingerir o material, que, por ser altamente tóxico, o debilita. Fraco e sem conseguir se alimentar, o animal é levado pelo mar até a praia.

O grupo de pinguins recuperado foi encontrado no início de junho, bastante debilitados, com sinais de hipotermia, desidratação e anemia, especialmente provocados pela grande quantidade de óleo presente nas penas. Os animais foram resgatados e encaminhados ao Cram, que iniciou um processo chamado de despetrolização, que compreende uma série de ações como a estabilização clínica, a lavagem cuidadosa das penas e a administração de produtos específicos para remoção do óleo.

Após 45 dias de tratamento, a equipe do Cram desenvolveu algumas avaliações clínicas e comportamentais que atestaram a recuperação de 16 dos 18 pinguins resgatados. O processo de soltura foi realizado na manhã desta quinta-feira, 30, em alto-mar. A ação aconteceu em parceria com a Praticagem da Barra, que disponibilizou duas lanchas para o movimento logístico; além da Portos RS, SAGRES e TGS. Dois animais seguem sob monitoramento e devem ser reconduzidos ao mar em breve.

Para o diretor do Complexo de Museus e um dos fundadores do Cram, Lauro Barcellos, é lamentável que ainda existam casos de animais afetados por vazamentos de petróleo no mar. “Isso é um problema já antigo, e esses animais petrolizados, como nós chamamos, são trazidos para cá, para que possamos salvá-los. Hoje é um grande dia, porque estamos reconduzindo à natureza os pinguins que estavam petrolizados, e que ao longo de um mês e meio, desenvolvemos um trabalho intenso de reabilitação, que envolve muitas pessoas e muitos parceiros”, destacou.

Sobre o processo de soltura

Para que um animal reabilitado possa retornar ao seu habitat natural, é preciso que ele atenda a uma série de critérios básicos, envolvendo atividade e comportamento, além de estarem condicionados aos resultados de exames que comprovam a normalidade dos parâmetros observados. “Feito esse processo de avaliação e verificada a possibilidade de soltura, a equipe começa a planejar esse processo respeitando condições específicas para cada espécie”, explica Paula.

Os pinguins, por exemplo, são animais gregários, ou seja, tendem a agrupar-se, e, portanto, são liberados em grupo.

Para esta operação, a equipe do Cram iniciou os trabalhos ainda no início da manhã, com a higienização do espaço de convívio dos pinguins. Em seguida, os animais foram acomodados em duas caixas de transporte, que foram embarcadas em uma lancha no cais do Museu Oceanográfico da FURG. A embarcação seguiu até o cais da Praticagem da Barra, onde uma segunda lancha juntou-se à operação para acompanhar o deslocamento até um ponto localizado a mais de cinco milhas da costa, em direção ao alto-mar, onde as aves foram devolvidas ao seu ambiente natural.

Agora, os animais seguem o seu rumo migratório de volta à Patagônia, de onde migram, geralmente entre o inverno e o início da primavera, em busca de alimento. A liberação em alto-mar permite que as aves retomem esse percurso em condições mais seguras, reduzindo o risco de novos encalhes na costa devido à força das correntes marítimas e aumentando as chances de reencontro com outros indivíduos da espécie durante a migração.

Todos os animais foram liberados com uma marcação, na forma de um microchip, que envia informações à equipe do Cram.

Sobre o Cram

Em 1974, o oceanólogo Lauro Barcellos deu início a um trabalho institucional de reabilitação dos animais marinhos enfermos e debilitados, encontrados ao longo da praia arenosa do Rio Grande do Sul. A ação era apoiada pelo então professor Eliézer Rios, diretor fundador do Museu Oceanográfico; seu colega Rodiney Nascimento e de médicos voluntários que ofereciam ajuda e conhecimentos para tratar as espécies resgatadas.

“Nós começávamos ali uma atividade que até então não estava institucionalizada, e, portanto, a estrutura que assumiu institucionalmente essa ideia foi o Museu Oceanográfico. Atividade que hoje não é só institucional, mas sim de extrema importância, reconhecida pelas leis nacionais, e de referência para os animais que aqui chegam enfermos, debilitados, petrolizados e agredidos pelo comportamento humano”, comentou Barcellos.

Em 1995, o veterinário Rodolfo Pinho da Silva e a oceanógrafa Andréa Adornes passaram a integrar a equipe do centro, que, naquele momento, recebia apoio do Ministério do Meio Ambiente por meio do Fundo Nacional do Meio Ambiente. O suporte ajudou na construção de instalações adequadas para os trabalhos de reabilitação. Desde então, a infraestrutura cresceu e se qualificou ainda mais, contando atualmente com áreas para despetrolização de fauna, tanques para reabilitação de animais, sistemas hidráulicos adequados, água quente em abundância, medicamentos, materiais para resgate e imobilização de animais.

Com a readequação dos espaços e o investimento em equipamentos, o trabalho foi denominado Centro de Recuperação de Animais Marinhos (Cram), ao qual se atribui uma média de 600 animais recuperados e salvos anualmente. Hoje, o grupo integra a estrutura organizacional da FURG, como anexo ao Museu Oceanográfico. De acordo com Lauro, a parceria é fundamental e viabiliza a ação nacional e internacional das equipes do Cram, tanto pela capacidade instalada quanto pela possibilidade de formação e capacitação dos participantes.

“O Cram é motivo de orgulho para a nossa Universidade, é motivo de orgulho para todos nós que trabalhamos nessa grandiosa instituição, e é motivo de orgulho para a nossa comunidade. Estamos há 53 anos fazendo um trabalho excelente, ajudando a natureza e ensinando as pessoas a serem mais cuidadosas e a viverem em harmonia com o meio ambiente”, completa Barcellos.

 

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Após 45 dias de tratamento intenso, pinguins encontrados cobertos por óleo voltam ao mar

Hiago Reisdoerfer/Secom