Um estudo desenvolvido pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) revelou a gravidade dos impactos da poluição do ar sobre a saúde da população nas capitais da Amazônia Brasileira. A pesquisa estima que, em um período de cinco anos, a exposição crônica ao material particulado fino (PM2,5) esteve associada a 5.472 mortes por doenças do aparelho circulatório e a 2.621 mortes por doenças respiratórias nas sete capitais da região Norte: Belém (PA), Boa Vista (RR), Macapá (AP), Manaus (AM), Palmas (TO), Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC).
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O trabalho foi realizado pelo grupo de pesquisa em Saúde Ambiental da FURG e integra a dissertação de mestrado de Gustavo Silveira, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, sob orientação do professor Flávio Rodrigues. Além do desses pesquisadores, assinam o artigo Rodrigo de Lima Brum (FURG), Ronan Adler Tavella (Universidade Federal de São Paulo - Unifesp), Alicia da Silva Bonifácio (FURG) e Ronabson Cardoso Fernandes (Unifesp). A análise utilizou dados coletados entre 2018 e 2023 e contou com o apoio de uma ferramenta desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para estimar a mortalidade atribuível à exposição ao PM2,5.
Achados
De acordo com os resultados, todas as capitais analisadas apresentaram médias anuais de PM2,5 acima do valor recomendado pela OMS, que é de 5 µg/m³ (microgramas por metro cúbico de ar). As concentrações variaram de 10,47 µg/m³, em Palmas (2020), a 49,69 µg/m³, em Porto Velho (2021), com os piores índices registrados nos períodos de maior ocorrência de queimadas.
O estudo também mostrou que a população da região é exposta a longos períodos de ar considerado insalubre. Em várias capitais, foram registrados mais de 100 dias por ano com níveis diários acima do limite recomendado pela OMS (15 µg/m³). Além disso, foram identificadas correlações significativas entre o número de focos de incêndio e as concentrações de PM2,5, especialmente em Porto Velho e Rio Branco.
Paradoxo da Amazônia
Entre as doenças associadas à poluição do ar estão a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), o câncer de pulmão e a doença isquêmica do coração. O estudo aponta que as maiores cargas absolutas de mortalidade ocorrem nas capitais mais populosas, enquanto cidades menores, porém mais poluídas, apresentam cargas relativas elevadas.
Para o professor Flávio Rodrigues, o cenário evidencia uma contradição vivida pela região. “A Amazônia vive hoje um paradoxo: um bioma fundamental para o equilíbrio climático global, mas que, durante boa parte do ano, impõe às populações urbanas uma exposição contínua a níveis de poluição do ar incompatíveis com as recomendações de saúde”, afirma. Segundo ele, “quando traduzimos essa poluição em mortes atribuíveis, o problema deixa de ser abstrato e passa a representar, de forma muito concreta, um grave quadro de injustiça ambiental e sanitária”.
O estudo fornece subsídios científicos essenciais para a formulação de políticas públicas mais eficazes. “É fundamental fortalecer o monitoramento da qualidade do ar na região Norte, integrar dados ambientais e de saúde, aprimorar os sistemas de alerta e enfrentar as causas estruturais da degradação ambiental. Proteger a Amazônia é também proteger a saúde de milhões de brasileiros”, conclui o professor.
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