Inteligência Artifical (IA) e informação foram tema da disciplina Tópicos Avançados em Ciência da Informação, que envolveu os Programas de Pós-graduação em Ciência da Informação (PPCI) e em Educação em Ciências (PPGEC) da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). O conteúdo foi ministrado aos discentes, de 18 a 20 de março, pela bibliotecária dra. Luciana Mara Silva da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).
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A bibliotecária ministra cursos sobre uso da IA em todo país, é doutora em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro da Comissão Brasileira de Direitos Autorais e Acesso Aberto (CBDA3) da Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas de Informação e Instituições (Febab).
Luciana trabalhou aspectos atuais envolvendo o tema, como integridade acadêmica, autoria, plágio e autoplágio, questões que preocupam quem lida com produção acadêmica em tempos de acesso facilitado ao uso de IA. Entre os pontos abordados, aponta a necessidade do Letramento em Inteligência Artificial (IA) no ambiente acadêmico. "Hoje, não se trata apenas de capacitar os pesquisadores para usar ferramentas, mas sim de desenvolver uma compreensão profunda sobre como essas tecnologias funcionam, quais são suas limitações e seus potenciais vieses, sejam eles nos dados de treinamento, vieses de confirmação ou barreiras linguísticas e culturais", afirma.
Nesse contexto, cita a IA generativa, um tipo de inteligência artificial focada em criar conteúdos novos e originais — como textos, imagens, códigos, músicas e vídeos — a partir de dados existentes. "A IA Generativa atua como uma excelente assistente de pesquisa, oferecendo contribuições de apoio e celeridade no processo de escrita. Contudo, há um grande desafio ético. O aspecto central, portanto, é a transparência, a ética, a integridade acadêmica", acredita.
Para a bibliotecária, o grande desafio ético está ligado à "invisibilidade" da IA na produção acadêmica. "Como essas ferramentas podem produzir textos e análises de forma praticamente indetectável, a integridade na pesquisa não pode depender apenas de softwares antiplágio, deve ser amparada no valor, na honestidade do pesquisador, na sua formação ética", destaca. Essa ideia central está no artigo "O Anel de Giges e a IA na ciência: Quando a invisibilidade desafia a integridade", do professor de Marketing e Inteligência Artificial, Ricardo Limongi França Coelho, da Universidade Federal de Goiás (UFG) - discussão a qual Luciana apoia e partilha com os alunos.
Diante do desafio ético, Luciana considera a inserção desse tema na pós-graduação inegociável: "Estamos formando pesquisadores que estão na linha de frente da produção do conhecimento. Capacitar os pós-graduandos nesse cenário significa ensiná-los a integrar a IA de forma crítica e ética no seu ciclo de pesquisa, mantendo o rigor metodológico".
Considerando a perpectiva da ciência aberta, finaliza: "A pós-graduação deve garantir que o uso da IA preserve a agência humana e o pensamento crítico. Ao debatermos esse tema, preparamos os pesquisadores não apenas para otimizarem seu tempo, mas para promoverem uma ciência mais aberta, transparente e com resultados reprodutíveis, o que é o pilar da ciência aberta".
Nos próximos dois encontros, com a profª draª Angélica Miranda, do Instituto de Ciências Humanas e da Informação da FURG, serão trabalhados o histórico e conceito da ciência aberta e a ciência aberta e a importância do reuso dos dados da pesquisa.
Impacto das discussões
Discente da primeira turma do PPGCI, Marcela Polino já havia tido contato com abordagens sobre IA, porém, não de forma tão aprofundada. "Foi muito relevante entender como a Inteligência Artificial pode nos auxiliar na pesquisa científica com responsabilidade", diz. Ela também destaca a forma didática como a ministrante uniu conteúdo e prática para agregar conhecimento aos estudantes. "A professora abordou algumas metodologias de pesquisa e depois mostrou algumas IAs com foco em estudo científico, em como elas podem auxiliar no agrupamento dos textos, montagem de planilhas, apresentação, ideias de projetos, mas salientou a importância de sempre conferir os documentos originais, a nossa responsabilidade no uso ético, as diretrizes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e que a atribuição de autoria é sempre do pesquisador", enfatiza.
Pelo PPGEC, Diúli de Seta Lopes considera que a disciplina foi de extrema importância no processo de formação. "Os conteúdos abordados, forma muito clara, acessível e envolvente, especialmente relacionados ao uso ético da IA e às diferentes ferramentas aplicadas à pesquisa científica, contribuíram significativamente para ampliar meus horizontes e qualificar minha compreensão sobre as possibilidades e os limites dessas tecnologias no contexto acadêmico", afirma.
Para a mestranda, a temática impacta diretamente na produção dos trabalhos acadêmicos. "Como ingressei no programa no semestre passado e estou em fase inicial da dissertação, sobretudo no desenvolvimento da revisão de literatura, a disciplina se mostrou particularmente relevante, oferecendo subsídios práticos e teóricos que têm auxiliado diretamente na organização, busca e análise de produções científicas", conta.
Diante da importância do tema, Diúli espera que a temática seja aprofundada e oportunizada a todos os cursos. "Considero fundamental a ampliação de iniciativas como essa, com a implementação de disciplinas voltadas à Inteligência Artificial tanto na graduação quanto na pós-graduação. Estamos vivenciando um momento de transformação no campo da pesquisa, e a formação acadêmica precisa acompanhar essas mudanças, preparando pesquisadores de forma crítica, ética e atualizada frente às novas demandas científicas e tecnológicas", enfatiza.