Controlar a atividade de células nervosas utilizando luz, detectar partículas que atravessam o universo, compreender reações químicas e seus impactos em moléculas específicas, reinventar a tradição clássica literária, fortalecer o direito internacional e construir modelos capazes de explicar as oscilações da economia. À primeira vista, os temas reconhecidos pelos prêmios Nobel 2026 parecem pertencer a universos distintos; no entanto, quando observados a partir da produção acadêmica da FURG, encontram correlações com diferentes áreas de pesquisa desenvolvidas na Universidade.
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Neste 16 de outubro, dia da Ciência e da Tecnologia, a FURG celebra a sua capacidade de promover conhecimento que transforma e move o mundo. No entanto, este texto não tem o intuito de estabelecer equivalências, mas busca observar como grandes questões que hoje movem o mundo, também estão presentes nos laboratórios e nas salas de aula da instituição.
Mas antes, é preciso entender o que são os prêmios Nobel e qual a sua importância para a ciência global.
Prestígio e tradição
Composto por seis prêmios, o Nobel é considerado amplamente como um dos reconhecimentos mais importantes da ciência internacional. Entregue anualmente, a gênese da iniciativa remonta ao final do século XIX. Em 1895, o químico e engenheiro sueco, Alfred Nobel, criou um fundo para conceder parte da sua fortuna para pessoas com certificado serviço à humanidade. Alfred foi o inventor da dinamite e titular de mais de 350 patentes industriais.
No ano seguinte, Alfred faleceu, deixando mais de 260 milhões de dólares para o fundo. Apenas em cinco anos depois, em 1901, fora realizada a primeira cerimonia de entrega dos prêmios. Na época, foram agraciados cinco nomes, ligados à Física, Química, Medicina, Literatura e Paz. Em 1968 a fundação Nobel englobou uma sexta área: a Economia.
De 1901 a 2026, foram entregues 639 prêmios, já considerando a mais recente edição. Ao todo, foram 120 premiações entregues para a área de Física; 118 para a área de Química, 117 para a área de Medicina (ou Fisiologia); 119 para a área de Literatura, 107 para a área de Paz; e 58 para a área de Ciências Econômicas.
Fisiologia ou Medicina 2026: luz para compreender o funcionamento cerebral
O Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2026 foi concedido a Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel pelas descobertas relacionadas aos canais iônicos ativados pela luz e à optogenética. A técnica permite controlar, de forma precisa, a atividade de determinados tipos de células, especialmente neurônios, por meio de estímulos luminosos.
De acordo com a revista científica Springer Nature, ao tornar possível ativar ou inibir circuitos nervosos específicos e observar as consequências desse processo, a optogenética transformou a maneira como pesquisadores investigam memória, comportamento e diferentes funções cerebrais. Na FURG, a neurociência constitui um campo consolidado de investigação. O Laboratório de Neurociências (LabNeuro), vinculado ao Instituto de Ciências Biológicas (ICB), desenvolve pesquisas que incluem neuroproteção, doenças neurodegenerativas, glioblastoma, neurotoxicologia e avaliação pré-clínica de novos sistemas de administração de fármacos.
A relação com o campo reconhecido pelo Nobel também aparece na trajetória da pós-graduação da Universidade. Em 2017, uma dissertação do Programa de Pós-graduação em Ciências Fisiológicas investigou a neurogênese hipocampal e sua relação com a separação de padrões, processo associado à formação e diferenciação de memórias. O trabalho reuniu estudos experimentais sobre a integração de novos neurônios aos circuitos do hipocampo.
A aproximação, entretanto, não estabelece relação direta com o trabalho conduzido pelos laureados, mas destaca a correlação entre o objeto do estudo, e, também, nas perguntas que que permitiram chegar à conclusão reconhecida. Além disso, temas como circuitos neurais, sua relação com a memória, comportamento e funcionamento do cérebro também são campos investigados de diferentes maneiras por pesquisas e projetos na FURG.
O mesmo universo sob diferentes lentes
Na área da Física, o prêmio foi concedido a Francis Halzen, por suas contribuições decisivas para o IceCube Neutrino Observatory e para a descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica. De acordo com a U.S National Science Foundation, o mecanismo está instalado no Polo Sul e, por meio de milhares de sensores distribuídos em aproximadamente um quilômetro cúbico de gelo, detecta partículas de difícil observação. A partir desses dados, é possível analisar alguns dos fenômenos mais energéticos do Universo.
O Nobel dialoga com um campo presente no Programa de Pós-graduação em Física da FURG (PPGFIS). Entre suas linhas está a Astrofísica, que abrange estudos sobre galáxias, estrelas, supernovas, explosões de raios gama, estrelas compactas, sistemas binários e astrofísica de altas energias. A estrutura do programa reúne ainda grupos dedicados à Astrofísica Teórica e Computacional e à Física Nuclear e de Partículas.
A conexão nesse caso faz relação muito mais com a investigação dos processos físicos extremos do Universo e na interface entre astrofísica e física de partículas, do que com a forma e o caminho escolhido para a investigação premiada.
Quando a química precisa escolher
O Nobel de Química reconheceu Henri B. Kagan e Kenso Soai pelas descobertas de efeitos não lineares e da autocatálise na síntese orgânica assimétrica. Segundo a Royal Society of Chemistry, o problema está relacionado à quiralidade: algumas moléculas podem existir em duas formas, como imagens espelhadas uma da outra. Os estudos dos laureados contribuíram para compreender como processos químicos podem favorecer uma das duas configurações possíveis. Entre diferentes aplicações, a questão ganha ainda mais destaque na produção de medicamentos.
Na FURG, a síntese de moléculas e o desenvolvimento de processos catalíticos integram uma ampla estrutura de pesquisa em Química. O Programa de Pós-graduação em Química Tecnológica e Ambiental (PPGQTA) possui uma linha dedicada à síntese, isolamento, caracterização e aplicação biológica e tecnológica de compostos orgânicos, enquanto o Doutorado em Química inclui explicitamente síntese orgânica e escalamento de processos entre suas áreas de atuação.
A Universidade também conta com estruturas como o Laboratório de Pesquisa em Síntese Orgânica Sustentável, o Laboratório de Síntese Orgânica Catalítica e laboratórios dedicados à síntese de compostos e ao desenvolvimento de catalisadores e nanomateriais.
Tradição que continua inovando
Na Literatura, a canadense de 76 anos, Anne Carson, recebeu o Nobel pelo conjunto da sua obra, produzida ao longo de toda a carreira da ensaista e tradutora. Segundo a Svenska Akademien (Academia Sueca), seu trabalho estabelece um diálogo inventivo com a tradição clássica para criar novas formas na literatura contemporânea.
O movimento de olhar para a antiguidade não como passado, mas como repertório de permanente influencia para a produção cultural, encontra paralelo em pesquisas desenvolvidas no Programa de Pós-graduação em Letras da FURG (PPGL).
Direitos Humanos, justiça e a construção da paz
O Nobel da Paz de 2026 foi concedido à jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay, reconhecida por seus esforços em favor da paz e do direito internacional. Sua trajetória passa pelo enfrentamento ao apartheid, pelo Tribunal Penal Internacional para Ruanda, pelo Tribunal Penal Internacional e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. O Comitê Norueguês destacou especialmente sua contribuição para o fortalecimento de mecanismos internacionais de responsabilização por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio.
Na FURG, a área reverbera nos estudos em Direitos Humanos e Justiça Social. Pesquisas desenvolvidas no Programa de Pós-graduação em Direito e Justiça Social (PPGDJS) abordam temas como direito internacional, direitos humanos, acesso à justiça, gênero, violência, discriminação e proteção de grupos socialmente vulnerabilizados.
Entre os trabalhos disponíveis no acervo da Universidade estão estudos sobre o controle de convencionalidade e a aplicação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo Judiciário brasileiro, a proteção internacional dos direitos das mulheres e pesquisas voltadas à violência e desigualdade de gênero.
Nesse caso, a aproximação entre a produção acadêmica e a laureada se dá em razão de, tanto a trajetória de Pillay quanto diferentes pesquisas desenvolvidas na FURG, partirem da discussão sobre como transformar princípios universais de direitos humanos em mecanismos jurídicos capazes de produzir proteção, responsabilização e justiça.
Dos indivíduos para a grande escala
No Prêmio de Ciências Econômicas, Robert E. Hall e Michael Woodford foram reconhecidos pelo desenvolvimento dos fundamentos microeconômicos da estabilização macroeconômica. Em síntese, seus trabalhos ajudaram a construir modelos capazes de explicar como decisões tomadas individualmente por famílias e empresas se combinam e produzem efeitos sobre inflação, consumo, emprego e crescimento. De acordo com a Royal Swedish Academy of Sciences, outro aspecto importante da obra da dupla está em entender como políticas monetárias e fiscais podem atuar sobre essas oscilações para constituir o cenário econômico social.
O campo faz parte diretamente da pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Economia Aplicada da FURG (PPGE), como por exemplo, a área de estudo em Macroeconomia, Economia Monetária e Ciclos Econômicos.
O próprio curso de graduação em Ciências Econômicas da FURG contempla temas como política monetária, inflação, política fiscal, consumo e modelos macroeconômicos dinâmicos. Nesse caso, mais do que pertencer ao mesmo grande campo, os conceitos destacados pelo Nobel aparecem diretamente entre as ferramentas e problemas trabalhados na instituição.
Grandes perguntas, diferentes escalas
Os prêmios Nobel costumam reconhecer descobertas e trajetórias construídas ao longo de décadas, muitas vezes responsáveis por abrir novos campos de pesquisa ou transformar profundamente áreas já existentes. Olhar para os temas de 2026 a partir da FURG permite o exercício de perceber como essas grandes questões científicas e sociais também se desdobram em diferentes escalas dentro da comunidade acadêmica global.
A relação não significa que pesquisadores da FURG desenvolvam os mesmos trabalhos dos homenageados deste ano. Em alguns casos, a aproximação ocorre pelos métodos; em outros, pelos objetos de estudo ou pelas perguntas científicas compartilhadas. Há ainda situações em que o tema premiado pertence a uma especialidade mais específica do que aquela atualmente desenvolvida na Instituição.
É justamente nessa diferença que a comparação ganha sentido: da compreensão do cérebro à observação do Universo, da construção de moléculas às formas de organizar a economia e a sociedade, a pesquisa, enquanto parte dos fundamentos essenciais das universidades federais brasileiras, avança pela continuidade de perguntas que perpassam instituições, países e gerações. E, em diferentes áreas do conhecimento, a FURG trabalha não somente para levantar essas perguntas, mas também para respondê-las.