Durante a Assembleia Universitária de outorga de títulos honoríficos e distinções de 2026, realizada no dia 20 de agosto, a FURG, ao celebrar seu aniversário de 57 anos, concedeu o título póstumo de Doutora Honoris Causa à ativista e intelectual brasileira Lélia Gonzalez. Na ocasião, a intelectual foi representada por seu filho, Rubens Rufino, e sua neta, Melina Lima. Na manhã daquele dia, a Secretaria de Ações Afirmativas, Inclusão e Diversidades (Secaid) promoveu uma roda de conversa com ambos, abordando a história, a trajetória e o legado de Lélia.
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Rubens Rufino é filho único de Lélia, economista por formação e um dos gestores e organizadores do legado da mãe. Melina, filha de Rubens e neta de Lélia, é historiadora e diretora de Articulação Interfederativa da Secretaria de Gestão do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial do Ministério da Igualdade Racial (Sinapir/MIR).
Em sua fala, Melina destacou que o ativismo se apresenta em todos os espaços que pessoas negras ocupam, seja por meio do exercício de um cargo, seja em sala de aula, enquanto estudante ou docente, ou em qualquer outra atividade do cotidiano. Segundo Elina, não há uma separação entre o ser ativista e o ser intelectual, o que vai ao encontro do legado de Lélia, uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado, iniciativa de grande coragem, especialmente por ter sido constituída em plena ditadura militar.
Rubens, por sua vez, destacou o protagonismo das mulheres em sua família, ressaltando o papel de sua avó, Dona Orcinda, que, assim como Lélia, era assertiva, respeitada e muito decidida. “Tal passagem remonta aos escritos de Lélia, pois trazem o papel central das mulheres negras em suas elaborações, sempre com um olhar atento e multidisciplinar, pois a escritora era uma mulher extremamente culta, tendo sido graduada em História, Geografia e Filosofia, com pós-graduação em Comunicação e Antropologia, além de ainda ter estudado Sociologia e Psicanálise. Ela usava todos esses recursos para elaborar reflexões sobre as mulheres negras, o racismo, o sexismo e a questão de classe”, pontuou a servidora da Secaid.
Lélia é reconhecida por desenvolver reflexões pioneiras sobre a articulação entre raça, gênero e classe, abordagem que posteriormente seria sistematizada no campo teórico da interseccionalidade. Segundo Elina, a intelectual também elaborou conceitos importantes como o “pretuguês” e a “amefricanidade”.
O evento, que aconteceu no auditório Oceanos, no interior do Cidec-sul, lotou o espaço com estudantes, técnicos-administrativos em educação, professores, pesquisadores e representantes da comunidade. O momento marcou não apenas a oportunidade de ouvir pessoas qualificadas e próximas à autora, mas também a emoção em torno da entrega de um importante reconhecimento que evidencia a relevância da produção intelectual negra no Brasil.
“Para que alcançássemos tal vitória, destaco o papel da Comissão de Assuntos Afro-Brasileiros da Secaid, que levou essa demanda ao Gabinete da Reitoria. A proposta foi identificada pela professora Amanda Motta, uma das integrantes da comissão e líder do Grupo de Estudos Feministas Lélia Gonzalez, que percebeu que não havia pessoas negras, muito menos mulheres negras, no rol de agraciados com o título de Doutor Honoris Causa pela FURG”, explicou Elina.