A FURG recebeu representantes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nesta última quarta-feira, 21, para uma reunião institucional e uma visita técnica referente à avaliação do projeto RETER-Trindade – Fase 2. O encontro foi conduzido pela pró-reitora de Pesquisa e Pós-graduação, Daiane Dias, e pelo professor Leandro Bugoni, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), responsável pela coordenação científica da iniciativa. A visita integra a etapa final de análise de risco da proposta, classificada pelo Banco no âmbito de uma chamada pública voltada à conservação da biodiversidade em ilhas oceânicas brasileiras.
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O projeto, nomeado “Recuperação do Ecossistema Terrestre da Ilha da Trindade visando Evitar a Extinção de Espécies Ameaçadas”, foi classificado para análise na chamada “BNDES Biodiversidade: Ilhas do Futuro, Ninhos Protegidos”, vinculada ao Fundo Socioambiental e à iniciativa BNDES Azul. A seleção tem como objetivo apoiar a restauração de ecossistemas insulares, com atenção especial à recuperação dos habitats reprodutivos de aves marinhas ameaçadas de extinção, endêmicas ou migratórias.
De acordo com Leandro Bugoni, a proposta representa a ampliação de um trabalho de conservação iniciado pela Universidade em 2018, quando a primeira fase do RETER-Trindade foi desenvolvida com recursos da Fundação Grupo Boticário. Na ocasião, aproximadamente R$ 500 mil foram destinados à realização de ações de restauração ecológica e conservação da biodiversidade da ilha. A nova etapa pretende expandir significativamente a abrangência dessas atividades, tanto em relação aos recursos necessários quanto ao número de profissionais e instituições participantes.
“A FURG vai estar à frente de um projeto de grande envergadura, que reúne uma rede muito ampla de pesquisadores e instituições. Já executamos uma primeira fase, com recursos mais limitados, e agora temos a possibilidade de ampliar consideravelmente o alcance dessas ações. É uma iniciativa muito importante para a Universidade, tanto pela dimensão científica quanto pelo potencial de recuperação de um ambiente que sofreu impactos severos ao longo de sua história”, explica Bugoni.
Recuperação de ecossistemas e proteção de aves marinhas
A Ilha da Trindade possui características ambientais singulares e abriga espécies de fauna e flora de grande importância para a biodiversidade brasileira. Entretanto, de acordo com a Marinha do Brasil, a introdução de animais e plantas exóticas ao longo dos séculos provocou alterações significativas em seus ecossistemas, incluindo a degradação da vegetação nativa e a redução de áreas adequadas à reprodução de aves marinhas.
Nesse contexto, o RETER-Trindade busca desenvolver medidas capazes de reverter parte desses impactos, combinando restauração vegetal, manejo de espécies invasoras e monitoramento ambiental. Entre as ações previstas estão o replantio de espécies nativas, a remoção e o controle de plantas exóticas e o manejo de animais introduzidos na ilha, incluindo camundongos e lagartixas. O objetivo é restabelecer condições ambientais mais favoráveis à manutenção da biodiversidade e à recuperação das populações de aves.
Ainda segundo Bugoni, a nova fase deverá permitir a aplicação, em uma escala ampliada, de metodologias e estratégias anteriormente experimentadas pela equipe. O projeto também apresenta componentes de inovação científica, uma vez que algumas estratégias propostas ainda possuem poucos precedentes em programas brasileiros de restauração ecológica de ilhas oceânicas.
“Temos ações que foram desenvolvidas em caráter experimental nas etapas anteriores e que agora poderão ser implementadas em uma escala maior. Há também propostas inovadoras, com procedimentos que ainda não foram realizados no Brasil. A expectativa é conseguir recuperar a vegetação, reduzir os impactos das espécies invasoras e criar condições mais adequadas para que as aves marinhas possam voltar a ocupar e utilizar esses ambientes para reprodução”, detalha o professor.
A execução da proposta que será capitaneada pela FURG, também envolve uma ampla rede de cooperação, com apoio da Marinha do Brasil, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), de outras universidades brasileiras e de instituições internacionais. Essa articulação é considerada fundamental diante das particularidades logísticas e ambientais da Ilha da Trindade, cuja localização oceânica exige planejamento especializado para o deslocamento de equipes, equipamentos e materiais necessários às atividades científicas.
Cultura oceânica e divulgação científica
Além das intervenções voltadas diretamente à recuperação dos ecossistemas, o projeto contempla ações de educação ambiental, divulgação científica e promoção da cultura oceânica. A proposta prevê a produção de materiais educativos, atividades de formação de professores e iniciativas destinadas a aproximar o conhecimento científico sobre o oceano da comunidade escolar.
Entre as possibilidades está a articulação com o movimento das Escolas Azuis, iniciativa dedicada à inserção de conhecimentos sobre os oceanos no ambiente educacional e que conta com a participação do município do Rio Grande. As atividades buscam contribuir para o reconhecimento da importância dos ambientes marinhos, da biodiversidade e da chamada Amazônia Azul, aproximando estudantes e educadores dos desafios relacionados à conservação dos recursos oceânicos.
Para Bugoni, a dimensão educativa é parte importante da proposta, uma vez que amplia o alcance social das pesquisas desenvolvidas pela Universidade. Ao associar restauração ecológica, produção científica e formação de professores, a iniciativa pretende contribuir para a construção de uma consciência coletiva sobre a importância da conservação ambiental e da proteção dos ecossistemas marinhos brasileiros.
Infraestrutura científica e capacidade institucional
Durante a visita, os representantes do BNDES também conheceram estruturas de pesquisa da Universidade, em uma programação organizada para apresentar as capacidades técnico-científicas disponíveis na instituição. O roteiro contemplou o Centro Integrado de Análises (CIA), o Centro de Microscopia Eletrônica do Sul (Ceme-Sul), o Centro de Biodiversidade Subtropical (CBS) e o Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (Ciex), permitindo à equipe conhecer equipamentos, instalações e possibilidades de utilização da infraestrutura universitária no desenvolvimento de projetos estratégicos.
Para a pró-reitora Daiane Dias, a visita dos representantes é uma oportunidade de demonstrar a capacidade institucional da FURG em coordenar iniciativas científicas de alto impacto, assim como a sua capacidade de estabelecer articulações entre universidades, órgãos públicos e instituições de financiamento.
“O encontro reforça a relevância da atuação da FURG na produção de conhecimento científico e no desenvolvimento de soluções para a conservação ambiental, evidenciando a capacidade institucional de articular pesquisa, infraestrutura científica, financiamento e parcerias estratégicas para enfrentar desafios ambientais de importância nacional”, destaca a professora.
Daiane também ressalta a importância da apresentação dos centros multiusuários, que desempenham papel fundamental no apoio à pesquisa e na utilização compartilhada de equipamentos e estruturas especializadas. A aproximação com instituições de fomento, nesse sentido, contribui para ampliar a visibilidade dada capacidade instalada da instituição.
Próximas etapas
Embora a proposta tenha sido classificada pelo BNDES, o RETER-Trindade – Fase 2 ainda não possui sua aprovação definitiva. Segundo Bugoni, a visita técnica integra a última etapa da avaliação conduzida pelo Banco, que deverá subsidiar a conclusão da análise de risco e os encaminhamentos necessários à eventual formalização do apoio financeiro.
A expectativa dos pesquisadores é que o processo seja concluído nos próximos meses, possibilitando o início da nova fase do projeto. Caso aprovada, a iniciativa deverá representar um avanço na escala das ações de restauração ambiental desenvolvidas pela FURG, consolidando seu protagonismo em uma rede de pesquisa e conservação voltada à proteção da biodiversidade das ilhas oceânicas brasileiras.