Produzir conhecimento científico não significa, necessariamente, fazer com que seja conhecido, compreendido ou incorporado pela sociedade. Entre os resultados de uma pesquisa e as pessoas que poderiam beneficiar-se com eles, existem barreiras que ultrapassam a linguagem especializada e envolvem as condições de acesso à informação, os hábitos de consumo de mídia e as relações de confiança estabelecidas entre população e instituições científicas. Foi a partir dessa compreensão que a disciplina Comunicação para Ciência: articulando sentidos, sujeitos e mídias, vinculada ao Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde (PPGCS), encerrou suas atividades no dia 15 de outubro, durante encontro presencial realizado na Faculdade de Medicina (Famed).
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O encontro foi concebido como uma etapa de reflexão sobre os desdobramentos dos projetos elaborados durante o semestre. Organizados em clusters, os estudantes foram convidados a apresentar, em exposições de até cinco minutos, os primeiros movimentos de implementação de seus planos de comunicação, considerando as ações executadas, as dificuldades encontradas e os resultados que já poderiam ser observados.
A programação também previu uma roda de conversa orientada por uma questão que atravessou toda a formação: depois de conhecer as experiências dos demais grupos, o que cada cluster modificaria em sua própria estratégia? Mais do que encerrar formalmente a disciplina, a atividade buscou compreender como as decisões tomadas durante o planejamento se sustentam quando encontram as condições concretas de circulação do conhecimento.
Uma disciplina que nasce da pesquisa e se articula à extensão universitária
A proposta da disciplina está vinculada à trajetória de investigação do professor Fabio Frá Fernandes, doutor em Comunicação e docente do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Indústria Criativa da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Seus estudos examinam as relações entre comunicação, mídia e sociedade, com atenção aos processos de midiatização e às transformações comunicacionais que atravessam as universidades e os ecossistemas de inovação. Em diálogo com a Ecologia da Mídia e com o pensamento de Marshall McLuhan, essa trajetória parte do entendimento de que as tecnologias de comunicação não funcionam apenas como instrumentos de transmissão de mensagens, mas participam da organização das relações sociais e das condições pelas quais o conhecimento adquire visibilidade.
No campo da ciência, essa perspectiva conduz a uma discussão que envolve a própria responsabilidade das instituições que produzem conhecimento. A ampliação das possibilidades de publicação e circulação de conteúdos não eliminou as desigualdades de acesso à informação, tampouco assegurou que as evidências científicas sejam compreendidas ou reconhecidas por diferentes segmentos da população. Ao contrário, a presença da ciência nos ambientes midiáticos ocorre em meio a disputas de sentido, nas quais informações fundamentadas em pesquisas convivem com interpretações distorcidas, interesses econômicos e conteúdos deliberadamente falsos. Compreender essas dinâmicas tornou-se parte da investigação sobre o papel social da universidade e sobre as condições necessárias para que a pesquisa participe dos debates públicos.
É nesse contexto que vem sendo sistematizada a concepção de Comunicação para a Ciência, entendida como uma prática relacional e estratégica que integra a comunicação ao próprio desenvolvimento da pesquisa. A proposta não se limita a ensinar pesquisadores a produzir conteúdo para redes sociais ou a simplificar artigos científicos. Seu pressuposto é que a pesquisa estabelece relações com públicos e instituições que participam, de diferentes maneiras, da produção e da circulação do conhecimento. Reconhecer essas relações exige compreender quem é afetado por determinado problema científico, quais barreiras dificultam o acesso às informações e que formas de comunicação podem favorecer a participação social.
A disciplina integra esse movimento de articulação entre investigação acadêmica e formação de pesquisadores para a comunicação pública da ciência. Uma experiência anterior foi desenvolvida na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), em 2025, e a proposta teve continuidade na FURG, em 2026, sob a regência de Fabio Frá Fernandes e com a colaboração da professora Daniela Ramos. Na oferta da FURG, a disciplina foi estruturada com carga horária de 30 horas, contemplando fundamentos da Comunicação e atividades de experimentação voltadas à produção de estratégias aplicadas à realidade das pesquisas e das práticas profissionais dos estudantes.
A formação também se articula ao projeto de extensão Conexões pela Verdade: combate à infodemia e promoção da ciência, desenvolvido no âmbito da UFCSPA, sob a coordenação da professora Elizandra Braganhol, do Programa de Pós-Graduação em Biociências, e a vice-coordenação de Fabio Frá Fernandes, em cooperação com a Unipampa. Vinculado ao PROEXT-PG Letramento em Saúde da UFCSPA, o projeto busca enfrentar a desinformação por meio da educação midiática e científica, envolvendo pesquisadores na construção de ações que aproximem o conhecimento acadêmico das necessidades sociais. A iniciativa também se relaciona a pesquisas e atividades de extensão que investigam os desafios da comunicação em saúde e as possibilidades de participação das universidades na qualificação do ambiente informacional.
Em julho de 2026, o Conexões pela Verdade passou a integrar o Mapa Brasileiro da Educação Midiática, iniciativa coordenada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, com cooperação da UNESCO, apoio do Governo do Reino Unido no Brasil e parceria técnica da Agência Porvir. O Mapa reúne experiências de diferentes regiões do país voltadas à formação para o acesso e a análise crítica da informação, contemplando também iniciativas de divulgação científica. A inclusão do projeto amplia sua inserção em um panorama nacional de práticas de educação midiática e evidencia a relação entre a formação de cientistas-comunicadores e o enfrentamento à desinformação em temas que interferem nas decisões cotidianas da população.
A articulação entre a disciplina e o projeto de extensão expressa uma preocupação que acompanha as pesquisas desenvolvidas nessa área. A circulação de informações fundamentadas em evidências depende de competências comunicacionais, mas também da existência de espaços institucionais que permitam aos pesquisadores estabelecer relações com públicos externos à universidade. Nesse sentido, a formação de cientistas-comunicadores não pretende transformar todos os pesquisadores em profissionais de comunicação, e sim ampliar sua capacidade de reconhecer a dimensão comunicacional do trabalho científico e participar da construção de estratégias coletivas para sua circulação social.
Da pesquisa individual à construção coletiva de estratégias
A metodologia adotada na FURG foi organizada a partir de clusters, agrupamentos de estudantes constituídos por afinidades temáticas ou pela identificação de problemas comunicacionais compartilhados. A formação dos grupos buscou superar a lógica de reunir pesquisadores apenas para dividir tarefas de uma atividade avaliativa. O objetivo foi criar condições para que investigações de diferentes áreas encontrassem pontos de aproximação e fossem transformadas em propostas de comunicação orientadas por problemas da sociedade.
O percurso começou com um diagnóstico comunicacional das pesquisas, no qual os estudantes foram desafiados a examinar onde seus conhecimentos circulavam e quem tinha acesso a eles. Também precisaram identificar públicos que permaneciam distantes das informações produzidas em suas áreas, considerando obstáculos relacionados à linguagem e aos contextos sociais. A partir dessas análises, os clusters construíram perfis de públicos prioritários, definiram objetivos de comunicação e passaram a discutir quais mídias e formatos poderiam responder aos problemas identificados.
As atividades combinaram encontros síncronos de fundamentação teórica e discussão com laboratórios assíncronos de desenvolvimento dos projetos. Os estudantes trabalharam com construção de narrativas, planejamento estratégico da comunicação e recursos de design, além de experimentarem ferramentas de inteligência artificial generativa para apoiar a elaboração e a qualificação dos materiais. O uso dessas tecnologias foi acompanhado de discussões sobre autoria e responsabilidade científica, considerando que a produção automatizada de conteúdos também pode reproduzir informações incorretas e gerar representações inadequadas. Dessa maneira, o processo formativo procurou situar a tecnologia como recurso de apoio às decisões dos pesquisadores, sem substituir a análise crítica necessária à comunicação em saúde.
O trabalho final exigiu que cada cluster desenvolvesse um dispositivo comunicacional vinculado às suas temáticas de investigação ou atuação profissional, acompanhado de um plano de circulação. Isso significava que a escolha de um produto deveria decorrer de um problema previamente identificado, e não apenas da familiaridade dos estudantes com determinada plataforma. Também foi necessário considerar as condições de implementação das ações, reconhecendo que a produção de um material não equivale à sua utilização pelos públicos aos quais se destina.
Projetos aproximam a produção científica dos problemas da saúde
As propostas desenvolvidas durante a disciplina evidenciam como um mesmo campo de conhecimento pode demandar estratégias de comunicação distintas conforme os públicos e os contextos de circulação. Os trabalhos abordaram questões que interferem diretamente nas decisões de saúde, mas também exploraram problemas relacionados à representação social da ciência e à participação das comunidades nos processos de produção do conhecimento. Entre as iniciativas elaboradas estão campanhas educativas, materiais de apoio à assistência, projetos de extensão e protótipos de ambientes digitais, construídos a partir de diagnósticos realizados pelos próprios estudantes.
O cluster Vacina em Pauta direcionou sua proposta ao enfrentamento da desinformação sobre vacinação infantil, tomando como público prioritário pais e responsáveis por crianças de até cinco anos. O grupo desenvolveu uma série de folhetos educativos voltados ao esclarecimento de dúvidas sobre vacinas, com previsão de distribuição em unidades de saúde e escolas, articulando os materiais impressos a conteúdos para redes sociais. A estratégia também incorporou atividades de extensão universitária e experiências de educação lúdica sobre vacinação, dialogando com práticas já desenvolvidas no projeto Viralizando Ciência: Vírus e Vacinas, vinculado ao NIVI-FURG. A iniciativa reconhece que decisões relacionadas à vacinação não dependem exclusivamente do acesso a dados sobre eficácia e segurança, mas são atravessadas pelas relações de confiança que as famílias estabelecem com profissionais e serviços de saúde.
Também voltado à circulação de informações em saúde, o BioComunica concentrou suas ações na resistência aos antimicrobianos, problema associado ao uso inadequado de medicamentos e às dificuldades de compreensão pública de processos microbiológicos. O projeto propôs conteúdos em vídeo para redes sociais, materiais compartilháveis por aplicativos de mensagens e peças destinadas a espaços de circulação presencial, como unidades de saúde e pontos de ônibus. A definição dessas estratégias considerou as diferenças entre os públicos identificados pelo grupo, incluindo estudantes e profissionais que podem atuar como multiplicadores de informação. Ao trabalhar um tema frequentemente apresentado em linguagem técnica, o cluster procurou relacionar a resistência antimicrobiana às práticas cotidianas de uso de antibióticos e às consequências coletivas dessas decisões.
No âmbito da saúde da mulher, o ContracepIA apresentou uma proposta de comunicação sobre contracepção no puerpério, período em que dúvidas relacionadas ao planejamento reprodutivo convivem com mudanças na rotina das mulheres e com a circulação de orientações contraditórias. O produto central foi concebido como um assistente virtual baseado em inteligência artificial, destinado a fornecer informações educativas fundamentadas em diretrizes de instituições de referência, sem substituir a orientação dos profissionais de saúde. A proposta foi acompanhada por protótipos de materiais para redes sociais e recursos de acesso por QR Code, prevendo possibilidades de utilização em serviços de atenção à saúde da mulher, incluindo a maternidade e o ambulatório de revisão pós-parto do Hospital Universitário Dr. Miguel Riet Corrêa Júnior. O projeto também explicitou a necessidade de revisão das respostas e atualização das informações fornecidas pela tecnologia, reconhecendo os limites do uso de sistemas automatizados em assuntos que envolvem decisões clínicas.
A relação entre conhecimento científico e prática assistencial orientou o desenvolvimento do Higieniza+, dedicado à higienização das mãos como medida de prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde. A proposta partiu da constatação de que a existência de protocolos e recomendações não garante, isoladamente, sua incorporação às rotinas institucionais. Para responder a esse problema, foram elaborados materiais direcionados a pacientes e acompanhantes, recursos de comunicação para profissionais de unidades de terapia intensiva e um painel de indicadores voltado ao acompanhamento das práticas de higienização e ao apoio à gestão. O projeto demonstra que comunicar ciência no ambiente hospitalar também significa organizar informações para subsidiar decisões e fortalecer a participação dos diferentes atores envolvidos na segurança do cuidado.
O envelhecimento foi abordado por duas iniciativas que, embora compartilhem preocupações relacionadas à saúde da população idosa, adotaram recortes comunicacionais próprios. O MOVE60+ desenvolveu uma campanha de incentivo à prática de atividade física, considerando as barreiras informacionais que dificultam a adesão de pessoas idosas a exercícios compatíveis com suas condições de saúde. Foram elaborados materiais para unidades básicas de saúde e uma proposta de comunicação por rádio, além de ações presenciais que poderão aproximar profissionais e usuários da Atenção Primária. A escolha dos meios reflete o reconhecimento de que a população idosa não constitui um público homogêneo e de que campanhas centradas exclusivamente nas redes sociais podem deixar de alcançar pessoas que recorrem a outros canais de informação.
Já o cluster Longevidade & Ciência trabalhou com a comunicação de evidências relacionadas ao envelhecimento saudável, contemplando tanto pessoas idosas quanto profissionais da Atenção Primária à Saúde. Entre os produtos elaborados estão publicações educativas sobre identificação de informações confiáveis na internet, materiais relacionados aos cuidados durante o envelhecimento e conteúdos específicos sobre sarcopenia, condição caracterizada pela perda de força e massa muscular. Para o público profissional, foi produzido um banner científico destinado a apoiar a consulta às evidências e sua aplicação na assistência, enquanto um jornal informativo buscou tornar o tema compreensível para a população. A diferenciação entre esses materiais expressa uma das questões discutidas na disciplina, uma vez que a mesma evidência científica pode exigir abordagens distintas conforme as necessidades de quem vai utilizá-la.
A aproximação entre universidade e escola orientou o cluster Uma Só Saúde, que desenvolveu uma proposta de comunicação sobre a abordagem internacionalmente conhecida como One Health. O projeto parte da compreensão de que as condições de saúde das pessoas estão relacionadas à saúde dos animais e às transformações ambientais, envolvendo processos que demandam uma leitura integrada dos problemas sanitários. Com foco em estudantes do ensino médio, o grupo planejou ações em ambientes escolares, acompanhadas de materiais para redes sociais e produções audiovisuais voltadas à discussão de questões presentes no cotidiano das comunidades. O trabalho também considerou os desafios de desenvolver estratégias educativas que ultrapassem a simples apresentação de conceitos científicos e estimulem os estudantes a relacionar o conhecimento às condições do território em que vivem.
Dois outros projetos abordaram a relação dos jovens com a ciência a partir de perspectivas complementares. O Quem Faz a Ciência propôs mostrar a rotina de pesquisadores e os processos envolvidos em investigações desenvolvidas na FURG, especialmente nas áreas de cultura celular e nanotecnologia, utilizando recursos audiovisuais e conteúdos que possam ser compartilhados com estudantes do ensino médio. Seu diagnóstico identificou que a distância entre universidade e sociedade também se manifesta quando jovens não se reconhecem como possíveis participantes da produção científica, sobretudo em contextos marcados por desigualdades de acesso ao ensino superior. Nesse caso, a comunicação foi pensada como uma forma de tornar visíveis as pessoas envolvidas na pesquisa e ampliar o conhecimento sobre as possibilidades de participação na universidade.
O i9 Saúde, por sua vez, desenvolveu uma proposta destinada a jovens estudantes que utilizam tecnologias digitais no cotidiano, mas nem sempre conhecem suas possibilidades ou limitações para o autocuidado. A estratégia aborda o uso de aplicativos e dispositivos de monitoramento de saúde, buscando discutir critérios de confiabilidade e a importância da proteção de dados pessoais. Os materiais foram planejados para circulação em redes sociais e possível integração com atividades de educação em saúde, ressaltando que recursos tecnológicos não substituem o acompanhamento profissional. A proposta também estabelece indicadores para avaliar o alcance e a interação com os conteúdos, permitindo que as ações sejam revistas a partir das respostas dos públicos.
Comunicar não é apenas produzir conteúdo
A diversidade das propostas evidencia uma questão que atravessou o desenvolvimento da disciplina. Embora diferentes pesquisas possam compartilhar objetivos relacionados à promoção da saúde, seus públicos não acessam informações pelos mesmos caminhos nem atribuem os mesmos sentidos às mensagens que recebem. Uma orientação sobre vacinação dirigida a famílias com crianças pequenas demanda condições de comunicação distintas daquelas necessárias para apoiar decisões de gestores hospitalares. Da mesma forma, uma campanha sobre atividade física para pessoas idosas não pode partir dos mesmos pressupostos que orientam a produção de conteúdos digitais para estudantes do ensino médio.
Essa compreensão está relacionada a uma das discussões centrais da Comunicação para a Ciência, segundo a qual a eficácia de uma estratégia não pode ser reduzida à quantidade de materiais produzidos ou ao número de pessoas alcançadas por uma publicação. Indicadores de visualização e engajamento podem oferecer informações sobre a circulação dos conteúdos, mas não demonstram, isoladamente, que houve compreensão das mensagens ou mudança nas práticas de saúde. Para avaliar os efeitos de uma iniciativa, é necessário examinar a relação entre o que foi comunicado e as condições em que a informação poderá ser utilizada. Essa análise também exige reconhecer fatores que não dependem apenas da comunicação, como o acesso aos serviços de saúde e as condições de vida das populações.
Outro aspecto presente nos trabalhos foi a integração entre meios digitais e espaços presenciais. A presença das redes sociais nos planos de comunicação não eliminou a utilização de materiais impressos, encontros comunitários ou ações educativas nos serviços de saúde. Em diferentes situações, os clusters reconheceram que uma estratégia baseada apenas na internet poderia reproduzir barreiras de acesso já existentes, especialmente entre pessoas com menor familiaridade com tecnologias digitais. Essa percepção reforça a necessidade de considerar os ambientes comunicacionais como parte das relações sociais em que a informação científica circula.
A utilização da inteligência artificial generativa também ocupou espaço nas reflexões desenvolvidas durante o semestre. As ferramentas foram experimentadas na criação de materiais e na elaboração de estratégias comunicacionais, mas sua incorporação exigiu discutir os riscos associados à produção de conteúdos que aparentam credibilidade sem necessariamente apresentar fundamento científico. Na área da saúde, essa questão assume implicações relacionadas à segurança das informações e à possibilidade de orientar decisões individuais. Por isso, a disciplina trabalhou com a necessidade de revisão humana e de responsabilidade dos pesquisadores sobre os conteúdos produzidos, independentemente das tecnologias utilizadas.
O que permanece depois da disciplina
A atividade presencial de encerramento retomou uma questão que ultrapassa os limites de uma avaliação acadêmica. Depois de desenvolver estratégias comunicacionais, identificar públicos e produzir materiais, os estudantes precisaram considerar o que seria necessário para que essas propostas encontrassem condições de aplicação e continuidade. A dinâmica dos pitches e a provocação apresentada para a roda de conversa foram organizadas justamente para colocar em discussão a distância entre o planejamento e as possibilidades concretas de implementação. Nesse exercício, reconhecer que determinada ação ainda não foi executada, ou que necessita ser reformulada, também constitui um resultado do processo formativo.
Os trabalhos demonstram diferentes estágios de desenvolvimento, com materiais produzidos, protótipos apresentados e ações que ainda dependem de articulações institucionais para sua circulação. Essa distinção é importante porque o potencial de contribuição social de um projeto não pode ser confundido com a comprovação de seu impacto. Uma campanha educativa somente poderá ter seus efeitos analisados depois que alcançar os públicos previstos e produzir condições para a observação das respostas às mensagens. Do mesmo modo, a continuidade de iniciativas vinculadas aos serviços de saúde depende da participação das instituições envolvidas e da incorporação das ações às suas rotinas.
A experiência também recoloca em discussão o lugar da comunicação na formação de mestrandos e doutorandos. A pós-graduação brasileira estabelece exigências relacionadas à produção e à publicação científica, mas a circulação social desse conhecimento não ocorre automaticamente como consequência dessas atividades. Desenvolver competências comunicacionais durante a formação acadêmica representa uma possibilidade de ampliar o entendimento dos pesquisadores sobre os efeitos de suas investigações e as responsabilidades envolvidas na relação com a sociedade. Isso não significa transferir individualmente aos cientistas todas as atribuições da comunicação institucional, mas reconhecer que universidades e programas de pós-graduação precisam criar condições para que essas práticas sejam incorporadas à sua atuação.
Nesse sentido, a disciplina desenvolvida na FURG representa uma das experiências formativas associadas à agenda de pesquisa e extensão que vem sendo construída entre instituições públicas de ensino superior. Sua articulação com o Conexões pela Verdade e com o campo da educação midiática coloca a formação de pesquisadores em diálogo com questões relacionadas à confiança nas instituições científicas e à circulação de informações sobre saúde. Ao reunir estudantes de diferentes trajetórias em torno da construção de estratégias comunicacionais, a iniciativa também permite experimentar formas de colaboração que podem permanecer vinculadas aos grupos de pesquisa e aos serviços em que esses profissionais atuam.
O encerramento em Rio Grande não representa, necessariamente, o término das ações concebidas durante o semestre. Para parte dos projetos, o desafio seguinte será estabelecer condições de circulação dos materiais e construir relações com os públicos identificados; para outros, será necessário revisar escolhas e reconhecer limitações que não eram evidentes durante o planejamento. Em ambos os casos, permanece uma questão que orientou toda a disciplina e que diz respeito ao papel público das universidades. Se a sociedade participa das condições que tornam a pesquisa necessária, de que maneira a produção científica pode construir relações que permitam a esse conhecimento retornar à sociedade e participar de suas decisões?