CLIMA

CIEX divulga nota técnica acerca dos impactos do El Niño no segundo semestre de 2026

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Foto: Jean Amaral/Secom

Na manhã desta quarta-feira, 1, o Centro Interinstitucional de Previsão e Observação de Eventos Extremos (CIEX) divulgou a primeira nota técnica do ano. O material, disponível na íntegra aqui, disserta sobre os impactos para a Região Sul do Estado a partir da transição entre os fenômenos La Niña e El Niño, previsto para o segundo semestre de 2026.

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De acordo com os dados analisados, há uma tendência consistente de aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, especialmente na região conhecida como Niño 3.4, área-chave para o acompanhamento do indicador conhecido como El Niño-Oscilação Sul (ENSO). As projeções são sustentadas por instituições de referência como o Climate Prediction Center, o International Research Institute for Climate and Society e o European Centre for Medium-Range Weather Forecasts, além de modelos nacionais desenvolvidos pelo CPTEC e pelo INMET.

Dividido em três seções, o documento contempla uma leitura sobre o cenário atual e as perspectivas para essa transição; os limites da previsibilidade, incertezas e a importância do trabalho contínuo de monitoramento para a eficiência dos cenários antecipados; e uma explicação sobre os mecanismos físicos do El Niño para entender os impactos hidrometeorológicos no Estado.

Cenário Atual e transição

Segundo as estimativas apresentadas pelo CIEX, a transição para a fase neutra do ENSO deve ocorrer já nos próximos meses. Entre maio e julho de 2026, a condição neutra aparece como mais provável, com cerca de 55% de chance de ocorrência. Entre junho e agosto, a probabilidade de formação do El Niño sobe para 62%, com tendência de persistência ao longo da segunda metade do ano.

Na Região Sul do país, especialmente no Rio Grande do Sul, a possível transição indica uma mudança relevante no regime de chuvas. A tendência é de aumento tanto na frequência quanto no volume das precipitações, embora a intensidade desses impactos esteja atrelada à evolução do acoplamento entre oceano e atmosfera nos próximos meses.

Até onde vai a previsão?

Apesar da leitura atual do cenário posto indicar maior risco de períodos chuvosos, o documento faz um alerta importante sobre os limites da previsibilidade climática. Ao desenhar possibilidades para um evento sazonal, como o El Niño, é preciso entender que há uma grande diferença em relação ao processo de previsão do tempo diário. “A sinalização de um El Niño indica um cenário de risco aumentado para chuvas, mas não funciona como uma previsão de eventos extremos em locais específicos com meses de antecedência. Mesmo diante de um episódio de forte intensidade, a ocorrência de chuvas idênticas a eventos históricos, como os de maio de 2024, não é garantida nem automática”, escreve o texto assinado pelo Centro.

Como funcionam as previsões?

As previsões com maior confiabilidade para eventos de chuva intensa e riscos hidrológicos costumam ter horizonte de até sete dias, com redução gradual da precisão em prazos mais longos. Por isso, enquanto os prognósticos sazonais são fundamentais para um planejamento estratégico, decisões operacionais devem se basear em previsões de curto prazo.

Outro fator destacado pela nota técnica é a chamada “barreira de previsibilidade da primavera”, período em que os modelos climáticos apresentam maior sensibilidade, reduzindo a assertividade das projeções. Nesse contexto, ainda não é possível determinar quais bacias hidrográficas poderão ser mais afetadas, já que as chuvas associadas ao El Niño podem ocorrer tanto de forma persistente ao longo de semanas quanto em eventos concentrados e intensos.

Sobre o El Niño e o que se pode esperar para o RS

A terceira e última seção da nota discorre sobre os mecanismos físicos atrelados ao fenômeno. Nesse sentido, o El Niño corresponde à fase quente do ENSO, caracterizada pelo enfraquecimento dos ventos alísios e pela redução da ressurgência de águas frias na costa do nosso continente. Esse processo provoca o acúmulo de águas aquecidas no Pacífico Central e Oriental, alterando padrões atmosféricos globais.

No Rio Grande do Sul, um dos principais efeitos está relacionado à intensificação da corrente de jato subtropical, que favorece a formação de sistemas frontais estacionários e o transporte de umidade da Bacia Amazônica para a Bacia do Prata. Esse cenário pode resultar em volumes de chuva acima da média climatológica.

Entre os principais riscos associados estão a elevação dos níveis dos rios, a saturação do solo e o aumento da probabilidade de inundações e movimentos de massa. A severidade desses impactos, no entanto, depende não apenas da intensidade do aquecimento oceânico, mas também da resposta atmosférica local.

Por fim, a nota reforça que a gestão de riscos e a tomada de decisão deve estar baseada no monitoramento contínuo das condições meteorológicas e hidrológicas. A integração entre previsões climáticas, dados em tempo real e sistemas de alerta é considerada essencial para subsidiar ações de planejamento e resposta, especialmente por parte da Defesa Civil e de gestores públicos.

Acesse a versão em PDF da nota técnica a seguir.

Nota Técnica