TÍTULO PÓSTUMO

Consun aprova Honoris Causa para a intelectual e militante Lélia Gonzalez

Marco histórico foi aprovado por aclamação na última reunião ordinária

O Conselho Universitário (Consun) da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) aprovou por aclamação a concessão de título póstumo Honoris Causa para a intelectual e militante do Movimento Negro brasileiro Lélia Gonzalez. A aprovação ocorreu na sexta-feira, 6, em reunião ordinária.

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A iniciativa partiu de uma solicitação realizada pela Comissão de Assuntos Afro-brasileiros da Secretaria de Ações Afirmativas, Inclusão e Diversidades da FURG (Secaid) ao Gabinete da Reitoria, que acolheu a solicitação e procedeu com a indicação ao conselho da universidade.

Lélia de Almeida Gonzalez, nasceu em Belo Horizonte-MG, no dia 1 de fevereiro de 1935, sendo a penúltima filha de 18 crianças nascidas da união do ferroviário Acácio Joaquim de Almeida e da dona de casa de origem indígena Urcinda Serafim de Almeida. Lélia formou-se em História, Geografia e Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), com mestrado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutorado em Antropologia pela Universidade de São Paulo (USP). Além disso, fez formações e cursos livres em Psicanálise.

A história e o legado de Lélia Gonzalez estão profundamente inseridos na FURG, onde em 2020 foi criado o Grupo de Estudos Feministas Lélia Gonzalez, devidamente registrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/CNPq e vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação da universidade.


Legado imortal

Em meados da década de 1960, Lélia Gonzalez inicia uma contundente trajetória que desafiou o racismo, machismo e o mito da democracia racial, em um cruzamento entre feminismo, movimento negro e pensamento intelectual. Em sua escrita, apresenta a figura da mulher negra como uma das prioridades.

Lélia Gonzalez foi pioneira nos estudos sobre cultura negra no Brasil e uma das fundadoras do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro (IPCN-RJ), do Movimento Negro Unificado (MNU). Além da sua atuação no Continente Americano, Lélia falou e representou o Brasil em diversos eventos na Europa e na África.

Em novembro de 1981, Lélia produziu um artigo para o jornal Mulherio intitulado “Democracia racial? Nada disso!” Que se trata de uma escrita que destaca o papel das mulheres africanas que, apesar do racismo, ensinaram aos brasileiros da época essa língua que ela nomeou de “pretuguês” (português africanizado).

Em 1982, Lélia publicou o livro “Lugar de Negro”, em coautoria com o sociólogo Carlos Hasenbalg. Em sua escrita, era abordado o modelo econômico de 1964 junto à situação da população negra nesse período, além da história do Movimento Negro, onde ela relatava sobre a separação racial vigente no Brasil: “Desde a época colonial aos dias de hoje, a gente saca a existência de uma evidente separação quanto ao espaço físico ocupado por dominadores e dominados (...)” (Gonzalez, 1982, p.15).

Lélia ainda escreveu o premiado livro “Festas populares no Brasil”, publicado em 1987, que apresentava o registro de festas populares que ocorriam por todo o Brasil, apresentando as influências africanas sobre elas e a diversidade cultural existente.

Em seu artigo intitulado “Por um Feminismo afro-latino-americano”, escrito em 1988, Lélia trouxe importantes contribuições para pensar feminismo, classe e raça: “Exatamente porque tanto o sexismo quanto o racismo são baseados em diferenças biológicas para se estabelecerem como ideologias de dominação” (Gonzalez, 2018, p. 309).

No mesmo ano, Lélia publicou o artigo intitulado “A categoria político-cultural de Amefricanidade”, no qual cria o conceito de Amefricanidade, conceito fundamental para compreender as experiências de pessoas negras fora do continente africano.

Lélia fez seis traduções de livros franceses para algumas editoras entre os anos de 1966 e 1977. Entre 1975 e 1994, elaborou em torno de 51 produções escritas, entre elas, artigos, ensaios e publicações não somente em português, mas também em francês, inglês e espanhol, pois era fluente nessas línguas, além disso, recebeu uma coleção de títulos e contabilizou diversas participações em eventos nacionais e internacionais ao longo da sua vida. Em 1994 tornou-se diretora do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio, universidade onde lecionou entre 1978 até a sua morte, em 1994.

Em 2018, um marco na obra de Lélia Gonzalez foi o lançamento do livro intitulado “Primavera para as rosas negras”. Em 2020, foi publicado o livro intitulado “Por um Feminismo afro-latino-americano”, também com as obras reunidas da autora.

Seu legado deixa artigos, livros, entrevistas, cartas e manifestos. Além disso, Lélia criou conceitos teóricos imprescindíveis para compreender o racismo no Brasil: Divisão Racial do Espaço, Pretuguês, Amefricanidade e escreveu sobre a tríplice opressão que anos depois foi nomeada de interseccionalidade.

 

 

Galeria

Grupo de Estudos Feministas Lélia Gonzalez

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