A exposição "A arte Queer de Toninho nos carnavais do extremo sul do Brasil", de Magno Veiga Correa, estudante de Tecnologia em Eventos, destacou um trabalho de 25 anos na arte, cultura e sustentabilidade realizado a partir de Santa Vitória do Palmar. A história do artista Toninho se mistura com a história dos carnavais da região sul do estado, onde a inspiração, a criatividade, a superação de dificuldades, o reaproveitamento de materiais e, principalmente, a dedicação dos artistas são fundamentais para a realização dos eventos.
Inspirada por essa história, Magno, aos 41 anos de vida e 25 de atuação em carnavais, busca resgatar a trajetória de Toninho para não deixar morrer a memória da festa popular. A ideia surgiu a partir da busca por um tema de trabalho de conclusão de curso (TCC). "Questionando, fazendo esse processo de afunilamento, caí nas fantasias, na criatividade, nas criações... Entrando em vários nichos, tópicos, selecionei o artesanal e, dentro dessa parte, a sustentabilidade", explica a estilista, chegando ao nome de Antônio Ricardo Sena Pereira, Toninho. "Que faz fantasias sustentáveis, que reutiliza, dá outra visão a esse material que seria descartado e pra outras pessoas não tem validade, passa despercebido", completa.
Conhecedora da trajetória do artista desde quando ele começou, a estudante e estilista considera a exposição um sucesso. "Alcançar o êxtase da felicidade dele foi algo fabuloso, ver o Toninho ter essa visibilidade... Muitas das vezes essas fantasias passam na avenida, nos clubes sociais, muito rápido aos olhos de quem vê, não presta atenção e não dá muito valor. Poder expor esse acervo na universidade pública, aberta à comunidade, para que as pessoas pudessem prestigiar, é uma cultura riquíssima para nossa sociedade, é algo primordial, surreal".
A exposição reuniu 19 fotografias do acervo do artista, vídeos, fantasias e materiais. Magno destaca a coragem de Toninho em apostar desde cedo em fantasias sustentáveis e sua contribuição para a história do carnaval na região: "Ele tem uma coisa maravilhosa de ressignificar esse material, os botões, canudinhos, lacres, num trabalho minucioso, bem acabado, muito bem costurado, com identidade, com personalidade. Espero que tenha ficado marcado na memória de todos que puderam se fazer presentes, porque nosso artista merece. É um artista ímpar, gigante, cuidadoso, delicado, gentil, tem um talento bárbaro. Ele conta uma história linda, sem rebentar a linha de ninguém. Não teria pessoa melhor para prestar essa homenagem e agradecer eternamente esse acervo, esse cuidado gigantesco que ele tem com o carnaval. Como ele mesmo diz, não vamos deixar o samba morrer. A gente não pode, até porque somos nós que fazemos o carnaval. E ele é uma peça fundamental, que abrilhanta, como abrilhanta esse TCC".
Conhecido como o mago das fantasias recicláveis, Toninho iniciou a carreira de forma autodidata. "Comecei assistindo na televisão o Carnaval do Rio e vi, em uma escola, que usaram material reciclado. Comecei com canudinho, tampinhas... O que vejo que jogam fora, sei que dá pra aproveitar e fica bonito", conta. Quanto ao processo criativo, revela um talento diferenciado, de quem imagina a fantasia com clareza na mente, antes de iniciar a costura: "Não desenho. Tenho pronta na minha cabeça, sei o que quero, como quero. Depois, é só colocar em prática e bordar muito". O artista completa, brincando: "Entre agulhas e reciclagem, porque não é entre agulhas e paetês..."
Toninho explica que os materiais são pintados e costurados um a um: "Já costurei 17 mil lacres numa fantasia. Tem todo o processo de pintura, de furá-los para passar a agulha... É uma terapia ótima."
Essa terapia, segundo o artista, trouxe ainda benefícios à saúde. "Pelo carnaval e por fazer essas fantasias, deixei até de fumar há 20 anos. Faço uma coisa que gosto e levo para as pessoas que admiram, gostam da arte. E assim está sendo até hoje".
Presente na abertura da exposição, Toninho falou sobre o reconhecimento recebido. "A sensação é maravilhosa. Faltam palavras para descrever. Estou muito feliz mesmo. A gente é um pouco esquecido, só é lembrado no carnaval. Não sei nem como explicar o que estou sentindo, dá vontade de chorar", afirmou, sem esconder a emoção.
Integração
A exposição foi realizada entre os dias 25 e 28 de novembro, na sala 1104, do campus Santa Vitória do Palmar. A expectativa agora, de acordo com Magno, além da defesa do trabalho de conclusão de curso prevista para junho, é poder levar a exposição a outros espaços e cidades. "Preciso de alguém que me proporcione este momento. É muito importante quando a cultura, a história, são de fato valorizadas. Nosso carnaval aqui, além de não darem atenção aos artistas, é um carnaval que está agonizando, está se perdendo e a história dele junto", reforça Magno, numa preocupação comum aos carnavalescos de cidades do interior.
Acostumada a dar vida a fantasias, Magno destacou também o processo criativo de preparação da sala para a exposição e a ligação com sua formação acadêmica na área de eventos. "É algo que também gosto de fazer, é outra visão. Transformar uma sala com mobília, didática, em uma galeria de artes, usando os próprios móveis, foi muito bom".
A presença de Toninho na inauguração da exposição, aliada a toda pesquisa anterior, que proporcionou selecionar os materiais expostos, foi o ponto alto para Magno, ao avaliar o evento. "Ver essa felicidade dele, o reconhecimento, o prestígio... Tivemos acesso a vídeos dele, de carnavais antigos, concurso de fantasias, desfiles na avenida Barão do Rio Branco... Esse aquecimento, desse calor, desse pulsar do samba, de quem gosta, de quem cria, de quem faz, remete muitas pessoas a lembranças, e isso é algo que você tem que alimentar. Alimentar lembranças é viver também", considera.
A organização do evento envolveu estudantes dos cursos de Evento e de Turismo, e toda a preparação, desde a fixação de molduras, colocação de suportes, focou na sustentabilidade, seguindo a perspectiva da arte de Toninho. "Não sair do contexto dele, da arte dele, foi algo mágico", avalia.
Para a professora do Curso Superior de Tecnologia em Eventos e orientadora do TCC, Ali Machado, o evento proporcionou aliar teoria e prática na formação do estudantes. "A exposição se tornou mais do que a pesquisa e produção de um evento como trabalho de final do curso de minha orientanda Magno Veiga. Com ela, além de homenagear os 25 anos do carnavalesco Toninho, pudemos colocar em prática os saberes debatidos em salas de aula, em diversas disciplinas, pois são muitos os elementos envolvidos para a organização do evento".
Ela considera que o trabalho em equipe foi fundamental para o sucesso do evento. "Sempre afirmo em sala de aula que eventos, profissionalmente, não se produz sozinho. São muitos recursos humanos e não humanos, além dos conceitos e ideias, que precisam estar posicionados de maneira adequada para que se chegue aos objetivos", destaca.
Segundo a professora, eventos são também uma oportunidade de inovar e despertar sentimentos: "É neste sentido que produzimos conhecimentos teóricos e práticos, resgatando histórias e inovando na arte de narrar, e tocamos afetivamente as pessoas, pois as tecnologias em eventos e, em especial, em eventos artísticos, como as exposições que são efêmeras, ficam na memória dos participantes".
Ali considera um prazer ter construído essa primeira parte do trabalho e aberto a exposição com uma vernissage para a comunidade acadêmica e a comunidade externa do município de Santa Vitória do Palmar. "Foi lindo ver as pessoas admirando tanto o trabalho artístico de Toninho, quanto vivenciando, muitos pela primeira vez, a experiência de participarem de uma exposição de arte completa, com vários tipos de recursos em exibição", finaliza.
*com informações de Sabrina Viegas, estagiária da Secom e estudante de Turismo - Campus SVP