PLANEJAMENTO

NEA PancPop reúne experiências técnicas para avançar no cultivo e comercialização das Pancs

Agricultores familiares, pesquisadores, estudantes, cooperativas e movimentos sociais do campo discutiram formas de manejo e resultados observados nas propriedades durante encontro

Photograph: Acervo NEA PancPop

O Núcleo de Estudos em Agroecologia PancPop (NEA PancPop), do Campus São Lourenço do Sul da Universidade Federal do Rio Grande (FURG-SLS), realizou, no domingo, 13, uma reunião de avaliação e planejamento das áreas de cultivo com Plantas Alimentícias Não Convencionais (Pancs), em São Lourenço do Sul. O encontro reuniu agricultores familiares, estudantes de graduação e pós-graduação, bolsistas, professores, agentes de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater), e integrantes de Cooperativas e Associações vinculadas ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA-RS). A reunião integra as atividades do grupo de trabalho do NEA responsável pelo acompanhamento dos sistemas biodiversos com Panc.

Pela manhã, os participantes foram divididos em grupos para avaliar diferentes conjuntos de espécies de Panc, considerando aspectos como produtividade, resistência, resiliência, custo, manejo, sabor, palatabilidade, aparência, consumo, processamento e possibilidades de comercialização. As percepções foram registradas em tarjetas de diferentes cores, permitindo organizar as observações e discutir os diferentes aspectos de cada cultivo. A avaliação também evidenciou diferenças entre as propriedades e entre as dinâmicas das famílias agricultoras envolvidas, já que uma mesma espécie pode apresentar comportamentos distintos conforme as condições de cultivo e o manejo adotado.

Segundo o professor Carlos Alberto Seifert Junior (Jajá), integrante do NEA PancPop, a atividade integra a perspectiva participativa adotada pelo Núcleo. “O NEA PancPop se sustenta nessa perspectiva de ciência, movimento e prática, como é a agroecologia. Então a gente tem uma base muito participativa, envolvendo os diferentes grupos que constroem esse processo. Esse foi um desses momentos participativos, de estarmos colhendo essas informações dos saberes, dos conhecimentos populares, técnicos, que perpassam as diferentes dimensões presentes”, destaca.

O agricultor familiar Luciano Mühlenberg destaca que acompanhar diferentes experiências permite observar resultados a partir de perspectivas distintas. “Não é só o que eu enxerguei. O pessoal do MPA também teve o ponto de vista deles, a família Fischer teve outro ponto de vista. Então, cada um testou uma coisa”, disse.

A experiência também passou a orientar decisões nos cultivos de Luciano, que pretende adaptar algumas práticas no próximo período de plantio. “Tem coisas que eu fiz há dois anos, em duas experiências, e que este ano vou fazer diferente. Essa troca de experiências é muito importante porque, na hora de plantar novamente, a gente já sabe o que precisa corrigir e pode fazer os ajustes a partir do que aprendeu”, complementou.


Da experiência no campo ao planejamento

Durante a tarde, os participantes voltaram a se reunir para compartilhar as informações levantadas pela manhã e colocar em diálogo as considerações de cada grupo, ampliando o registro das experiências observadas nas diferentes áreas. O trabalho também reúne dados obtidos em diferentes etapas das atividades realizadas pelo NEA PancPop. Para isso, foi utilizado um questionário, respondido individualmente pelas famílias antes das discussões, além de registros feitos durante visitas técnicas às propriedades e às feiras, mutirões, conversas com agricultores camponeses, acompanhamento do manejo e observação das experiências de comercialização.

A agricultora camponesa Neusa Maria Fischer, que integra as atividades do NEA PancPop, compartilhou sua percepção sobre a participação no trabalho desenvolvido pelo Núcleo. “Depois que eu entrei, se tornou um momento de alegria, de prazer. Eu cuido de cada planta e de cada semente com muito carinho. Meu dia a dia é esse aí. Aprendi muita coisa, muitas maneiras diferentes de tratar a mesma planta”, frisou.


Conhecimento construído nas propriedades

Os sistemas biodiversos com Panc envolvem, além do plantio, planejamento, experimentação, conhecimentos técnicos, tecnologias sociais e participação das famílias no acompanhamento das culturas. Para a docente e coordenadora do NEA PancPop, Jaqueline Durigon, essa integração entre o projeto e as famílias faz parte da concepção do trabalho desenvolvido pelo Núcleo. “O que fazemos no NEA, além de ser perspectiva acadêmica inovadora, de extrema importância para o desenvolvimento científico, também faz parte das nossas vidas enquanto cidadãs e cidadãos. O que a gente faz é a nossa vida, é a nossa visão de mundo. E nesse contexto, a participação ativa das famílias agricultoras é essencial.”

A necessidade de desenvolver pesquisas científicas sobre o cultivo de Panc adaptadas às condições do sul do país também foi discutida durante a reunião. Léia Beatriz Sell, egressa do curso de Licenciatura em Educação do Campo da FURG, e doutoranda em Sistemas de Produção Agrícola Familiar pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), além de integrante do NEA PancPop, explica que parte da literatura disponível foi produzida em outras regiões e países. “A gente sabe o quão pioneira é a produção de Panc aqui na nossa região e, principalmente, o quão novo ainda é para as pessoas. Porque há artigos escritos de produções em outras regiões do Brasil ou em outros países. Então, esses encontros são de extrema importância para a gente também ver o que funciona melhor aqui pra nossa região”, avalia.

Durante o encontro, também foram compartilhadas experiências de poda voltadas à melhoria da produção de flores e folhas, além de diferentes formas de manejo do tupinambor, com observações sobre o desenvolvimento dos rizomas.


Avaliar para construir os próximos ciclos

Para Josuan Sturbelle Schiavon, engenheiro agrônomo, responsável técnico da Cooperativa dos Agricultores Familiares e do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e integrante da direção estadual do MPA-RS, a dinâmica adotada durante a reunião permitiu reunir diferentes dimensões da experiência de cultivo. “Acho que o primeiro ponto que a gente tem que realçar aqui é o processo participativo e o quanto isso, para além do exercício de cidadania que eu acho que isso traz para as pessoas, é, de fato, técnico. Porque às vezes a gente fica achando que essa conversa não é técnica, que não é tão necessária. E eu acho que trouxe muitos elementos no campo técnico que os agricultores evidenciaram”, observa.

O engenheiro agrônomo aponta que o processo de avaliação também amplia o olhar para a relação entre as diferentes culturas e práticas utilizadas nas áreas. “A gente está num momento que a gente vai começar a avaliar não só as espécies, mas o sistema de produção”, aponta.

As informações levantadas durante as reuniões, nas propriedades e nas demais atividades de acompanhamento serão sistematizadas e irão gerar produção científica e tecnológica, demonstrando a importância de uma ciência cidadã e de uma perspectiva engajada de pesquisa científica.

 

 

 

Gallery

Reunião de avaliação e planejamento das áreas de cultivo com Panc, realizada pelo NEA PancPop

Acervo NEA PancPop