LETRAS

Projeto resgata aspectos históricos, culturais e linguísticos do Rio Grande do século XIX

Em textos da época, pesquisadores levantam pistas de organização social e de variação linguística

O projeto “Memória Linguística e Social da Cidade do Rio Grande entre 1800 e início de 1900: Ampliação e análise de corpora” resgata elementos de memória linguística e social do Rio Grande oitocentista, por meio da pesquisa em publicações da época. O projeto é coordenado pela professora Luciana Pilatti Telles, do Instituto de Letras e Artes (ILA/FURG) da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e vinculado ao grupo de pesquisa Memória Linguística e Social do RS, constituído por pesquisadores das universidades federais do Rio Grande do Sul (Ufgrs), de Santa Maria (UFSM), de Pelotas (UFPel) e da FURG.

São analisados aspectos históricos, culturais e linguísticos do Rio Grande do século XIX. “Buscamos, selecionar, descrever e analisar documentos de modo a entender pontos da organização social da localidade, a partir de movimentos de escolarização, circulação de periódicos e de livros, publicação de textos de instrução e organização de espaços de instrução e promoção da cultura”, explica a coordenadora do projeto, professora Luciana Pilatti Telles.

Entre os achados, a professora destaca algumas curiosidades: “Da análise de textos em fontes primárias e da leitura de textos científicos sobre o período, emergem elementos curiosos, que entendemos que possam ser de interesse do público em geral. Um exemplo é o relato de Marieta na seção Miríades, do periódico Violeta (Rio Grande, 1878-1879), do poeminha que um moço teria elaborado para descrever as características de seu ‘crush’ ideal”.

Marieta, segundo pesquisa de Juliana Rodrigues Swoboda citada pelo projeto, era pseudônimo da escritora e jornalista Julieta de Melo Monteiro, fundadora do periódico Violeta.

Outra curiosidade da época, especificamente sobre língua, trata da “escrita de verbos na terceira pessoa do plural para o pretérito perfeito e para o futuro do presente com a mesma estratégia de representação da nasalidade”, revela a professora.

A professora Luciana conta que também era costume os jornais locais republicarem textos de outros jornais. “Um desses textos é referente ao homem que foi enterrado vivo. A notícia foi publicada pelo jornal português 'Pobres do Porto', e republicada pelo jornal 'O Riograndense', em 13 de janeiro de 1849. Em sua apresentação, no perfil do projeto no Instagram, há uma paródia dos textos de Lady Whistledown, da série Bridgerton', conta.

A pesquisa se apoia em referenciais da Sociolinguística Histórica (Romaine, 1982; Hernández-Campoy; Conde-Silvestre, 2012) para descrever os aspectos de norma linguística emergentes em textos escritos oitocentistas. O projeto conta com a participação de estudantes de graduação de Letras - Português e Espanhol e de Pedagogia e de pós-graduação, do Mestrado em Letras (Estudos da Linguagem), e oferece bases para a produção de outras pesquisas e apresentação de trabalhos em eventos acadêmicos.

Para 2026, o objetivo é desenvolver ações extensionistas junto a escolas e tornar as atividades mais conhecidas na comunidade. Uma das ações realizadas recentemente foi a participação no Sabadou na FURG, nas edições de março e abril.


Redes sociais

Para auxiliar na divulgação e popularização da ciência, o projeto mantém um perfil no Instagram, onde publica os achados de pesquisa. Estudante de Pedagogia, Maria Rita Peixoto Lucas atua de forma voluntária na parte de divulgação científica do conteúdo oitocentista, produzindo materiais para as redes sociais, que tornem esse conhecimento mais acessível ao público. “A divulgação amplia o alcance das pesquisas acadêmicas e contribui para aproximar a sociedade da sua própria história linguística e cultural. Ao transformar o conteúdo científico em algo comunicável e visualmente atraente, ajudamos a fortalecer a preservação da memória social e incentivamos o interesse pela pesquisa”, avalia.

A partir do relato de Marieta na seção Miríades, por exemplo, o projeto realizou duas publicações: uma, de 11 de junho de 2025, com trechos em edição semidiplomática (conservando a escrita de época) e outra vinculada ao destaque “Jogo da Memória”. Confira as publicações no perfil do projeto no Instagram.


Contribuições para a sociedade

Também voluntária no projeto, a mestranda Caroline Pott Carniel auxilia na seleção e revisão de conteúdos. Em seus estudos para a dissertação, ela desenvolve pesquisa com referenciais da sociolinguística histórica e encontrou no projeto uma oportunidade de aliar os conhecimentos. "De modo semelhante, trabalho com textos escritos em sincronias pretéritas. No entanto, não utilizo documentos produzidos na cidade de Rio Grande, mas sim documentos históricos relacionados à educação de imigrantes italianos nos séculos XIX e XX. Minha experiência no projeto, inicialmente como bolsista de iniciação científica e agora como voluntária, contribuiu significativamente para o desenvolvimento da minha pesquisa. Foi nesse contexto que adquiri conhecimentos importantes, como o trabalho com corpus de textos históricos, o manuseio de documentos, a realização de transcrições e o uso de ferramentas de análise linguística, que hoje aplico diretamente na minha pesquisa no mestrado', explica.

Quanto à importância do projeto para a sociedade, finaliza: "É fundamental, porque, dentro da perspectiva da sociolinguística histórica, ele nos permite, de certa forma, 'ouvir o inaudível', no sentido proposto por Lass (1997), a língua falada em outras épocas, evidenciando que toda mudança linguística está ligada às relações sociais. Além disso, contribui para a preservação da memória linguística e social de Rio Grande e possibilita o acesso a registros oitocentistas em fontes primárias, tanto para os nossos estudos quanto para as publicações que desenvolvemos no Instagram".

 

 

Gallery

Projeto oferece bases para trabalhos acadêmicos e ações de extensão

Acervo/ILA FURG