Pesquisa

O que atividade física tem a ver com desigualdade de renda no Brasil? Estudo da FURG quer entender

Pesquisa do Iceac identifica associação entre níveis de atividade física, hábitos saudáveis e rendimentos do trabalho

Quem cuida mais da própria saúde recebe melhores ou piores salários? No país, a ligação entre hábitos considerados saudáveis e rendimentos laborais é mais complexa do que pode parecer. É o que investiga o projeto de pesquisa “Hábitos saudáveis e mercado de trabalho: evidências para o Brasil”, desenvolvido no Instituto de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis (Iceac) da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

Coordenada por Rafael Mesquita Pereira, professor adjunto do Iceac e do Programa de Pós-Graduação em Economia Aplicada (PPGE) da FURG, a pesquisa é financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), realizada em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e desenvolvida nos campi da FURG Rio Grande e Santa Vitória do Palmar. Integram a equipe Lívia Madeira Triaca, professora adjunta do Iceac, Cristiano Aguiar de Oliveira, professor associado do Iceac e do PPGE, e Guilherme da Fonseca Vilela, bacharel em Medicina da UFFS e mestre em Educação Física pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

O primeiro artigo produzido no projeto foi apresentado no 52º Encontro Nacional de Economia, realizado na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, em dezembro de 2024. Em 2025, o trabalho intitulado “Hábitos saudáveis e mercado de trabalho: uma análise quantílica para o Brasil” foi publicado na Revista Brasileira de Estudos de População (Rebep), um periódico nacional Qualis Capes A1. O estudo destaca informações relevantes sobre a relação entre saúde e mercado de trabalho, chama atenção também para recortes de gênero em relação à renda e pode contribuir para o debate sobre políticas públicas voltadas à promoção de hábitos saudáveis entre a população trabalhadora.

 

Parece paradoxo, mas não é

Em geral, a literatura especializada indica associação positiva entre hábitos saudáveis e salários, ou seja, mostra que a prática regular de atividade física está ligada a rendimentos financeiros mais altos dos trabalhadores, uma interação ainda pouco estudada em países em desenvolvimento como o Brasil. O grupo de pesquisadores do Iceac aprofundou o assunto, elaborou variáveis que ampliaram o panorama de análise e chegou a conclusões diferentes do que a maioria dos estudos econômicos e epidemiológicos costuma apontar. O resultado é um desenho mais detalhado da relação entre atividade física, hábitos saudáveis e rendimentos dos trabalhadores no país.

Para abordar o tema, os pesquisadores cruzaram microdados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e avaliaram como diferentes comportamentos ligados à saúde se conectam com os rendimentos dos trabalhadores. As observações incluíram diferentes faixas de renda e perfis da população, indo além das informações sobre a média dos trabalhadores.

Os achados identificaram associações negativas entre atividade física e rendimentos: pessoas com níveis insuficientes ou suficientes de atividade física tendem a apresentar menores rendimentos do trabalho. Foi percebida também associação negativa entre o índice de hábitos saudáveis — que considera não fumar e não fazer consumo abusivo de álcool — e os rendimentos, especialmente entre as mulheres. Os resultados sugerem que a relação entre saúde, atividade física, tempo disponível e rendimentos no mercado de trabalho é mais complexa do que pode indicar uma análise baseada apenas na média da população.

Segundo o coordenador, o que à primeira vista parece paradoxal encontra possível explicação na construção da variável de nível de atividade física empregada no estudo, que não considera apenas exercícios e atividades de lazer, mas também o esforço físico implicado no trabalho, nos deslocamentos e nas tarefas domésticas — o movimento de modo geral.

Para o estudo, a variável atividade física foi classificada em três níveis: inativa, quando a pessoa praticava menos de dez minutos de atividade física por semana; insuficientemente ativa, quando praticava de 10 a 149 minutos semanais; e suficientemente ativa, quando praticava 150 minutos ou mais por semana. A medida também considera de forma diferenciada atividades de intensidade moderada e vigorosa.

Ao acrescentar essas dimensões à investigação, “nós vemos que pessoas que praticam níveis insuficientes e suficientes de atividade física em maiores proporções estão nos extratos mais baixos da distribuição de renda, ou seja, (...) são as pessoas que recebem menores salários”, explica Rafael.

A partir daí, modelos econométricos foram usados para estimar regressões de salários e examinar a relação entre rendimentos e atividade física. A associação negativa se evidenciou ao longo da distribuição de renda: em geral, quanto maiores os salários, menor a participação nas categorias de atividade física que incluem o esforço realizado no trabalho, nos deslocamentos e nas tarefas domésticas.

A conclusão, no entanto, não significa necessariamente que os trabalhadores de maior renda sejam mais sedentários. O estudo observa a quantidade de atividade física, e não mede diretamente o tempo que as pessoas passam sentadas ou em outros comportamentos sedentários. A diferença encontrada pode estar relacionada, entre outros fatores, ao tipo de ocupação exercida por trabalhadores de diferentes faixas de renda.

Contribuições

Um dos dados importantes que o estudo revela sobre as desigualdades sociais no Brasil, e que não seria percebido olhando separadamente para indicadores de renda ou de saúde, é a distinção entre a atividade física incorporada à rotina e aquela realizada voluntariamente no tempo de lazer.

Quem ganha menos dinheiro tende a estar mais exposto a atividades físicas relacionadas às condições de trabalho, aos deslocamentos e às tarefas domésticas. Já trabalhadores de maior renda tendem a desempenhar funções que exigem menos esforço físico. Isso ajuda a explicar por que, quando todas essas dimensões são consideradas conjuntamente, os níveis mais elevados de renda aparecem associados a menores níveis de atividade física.

Quando o componente do lazer entra na equação, o estudo do Iceac encontra um resultado diferente e mais próximo do que apontam pesquisas tradicionais: há associação positiva entre atividade física de lazer e rendimentos. Quer dizer, trabalhadores com maiores rendimentos tendem a apresentar maior participação em atividades físicas realizadas no tempo livre — um tipo de prática que também pode depender de disponibilidade de tempo, recursos e acesso a espaços e oportunidades de lazer.

Marcar a diferença entre atividade física realizada no lazer e aquela decorrente da rotina laboral é uma das contribuições da pesquisa, considera o professor. “Fazer essa distinção e ainda, depois, com alguma robustez, analisar especificamente a relação de salários com atividade física somente por lazer”, diz.

Ao apresentar evidências sobre como diferentes formas de atividade física se distribuem entre trabalhadores de diferentes faixas de renda, o estudo contribui para ampliar a compreensão das desigualdades sociais ligadas à saúde e pode subsidiar a discussão sobre políticas públicas mais direcionadas às condições concretas de vida e trabalho da população brasileira.

 

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